quinta-feira, 28 de novembro de 2013

JUMENTO E PADRE



         JUMENTO E PADRE
Clerisvaldo B. Chagas, 29 de novembro de 2013.
Crônica Nº 1095

Jumento (Wikipédia).
Desde as décadas mais distantes no Nordeste que os entendidos já diziam que Sertão só prestava para polícia e cangaceiro. Não sabemos, amigos, se alguém perguntou isso aos chefes de volantes como Aniceto, João Bezerra, Manoel Neto, Zé Rufino ou ao bandido Lampião. O certo é que sempre fomos pródigos em ditados populares no Brasil, especialmente na Região Nordeste, onde a filosofia corre na boca de todos, inclusive dos analfabetos. Foi assim também que filosofou o repentista quando o companheiro de cantoria falava na brabeza da seca:

“Eu tava me sustentando
De fruta de macaúba
Mas o galho ficou alto
Eu não conheço quem suba
De vara ninguém alcança
De pedra ninguém derruba”.

E por falar em seca, inventaram também outro adágio interessante a respeito do assunto: “Da seca do Sertão só escapa jumento e padre”. Padre porque sempre gozou de mordomia alimentar nas caatingas sertanejas; jumento porque quanto mais seco fica o tempo, mas o bicho engorda comendo tudo que aparece à frente, inclusive casca de pau.
Agora nesse Sertão velho de meu Deus, o progresso anda a cavalo, mas os assaltos chegam de supersônicos. Virou moda em Santana assaltar mercadinhos, porém, ao perder a graça, fizeram novo lançamento migrando para as lojas do Comércio, calçadas residenciais e escolas do governo. Ninguém tem mais lugar seguro em Santana do Ipanema. O cão tá solto e a população há muito reclama do desarmamento para pessoas decentes.  A conversa de ouvido a ouvido é uma só: é preciso um governo forte que faça uma limpeza geral no país inteiro, para começar tudo do zero. Ninguém sabe até quando a população vai aguentar sem agir em bloco como no Velho Oeste americano. Uma coisa apenas sabemos: isso estar ficando cada vez mais perto. Enquanto a limpeza geral não vem, o que se pode fazer ainda é filosofar como nossos avós. Dessa violência que tomou conta da capital e do interior, não escapa ninguém, nem mesmo JUMENTO E PADRE.  

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quarta-feira, 27 de novembro de 2013

SÓ O IBGE SABE



SÓ O IBGE SABE
Clerisvaldo B. Chagas, 27 de novembro de 2013.
Crônica Nº 1094

Imagem de site.
Santana do Ipanema, cidade polo do Sertão alagoano, vai penosamente cumprindo o seu destino. Funcionando como a capital do semiárido, intitulada há muito como “Rainha do Sertão”, aproveita a excelência da construção civil e expande-se em todas as direções. Os seus pontos extremos dependem apenas de loteamentos que vão derrubando a mentalidade antiquária que predominou por décadas.
A região norte, urbana, estira-se pelo Bairro Lajeiro Grande e aproxima-se do sítio Barroso que em breve estará fazendo parte do bairro. Precisa apenas uma rodovia entre as proximidades do cemitério São José, linha reta até a Rua Prof. Ernande Brandão, saindo nas imediações da Delegacia de Polícia, no Aterro. Mais de três quilômetros de rodeios seriam evitados para quem se deslocasse naquela direção. Uma obra “para quem tem peito”, com cara de necessidade.
A parte sul esbarra na reserva ecológica do serrote Pintado ou nos sopés da serra Aguda. Como a população ocupa todos os lugares, aguarda-se um grande investimento nos terrenos acidentados da serra Aguda, para ajudar na expansão rumo ao sítio Olho d’Água do Amaro e cidade de Senador Rui Palmeira. Entretanto, na direção sul, todo o Bairro Domingos Acácio e Floresta estão praticamente ocupados.
O Oeste funciona como direção contrária à capital, mesmo assim o perímetro urbano chega perto da entrada do sítio Remetedeira, pé de serra. Importantes construções procuram às margens da BR-316.
O rumo leste que puxa para as bandas de Maceió está sendo ricamente ocupado. Se o complexo educacional de Santana, Ensino Médio, cansou na parte baixa do Bairro Camoxinga, surge agora um polo universitário no Bairro Lagoa do Junco, juntamente com o polo de Justiça.
Em todas as direções contemplamos as modificações da paisagem, porém, ficamos sem entender como cresce tanto o comércio e as prestações de serviços, mas as pesquisas nunca deixaram que Santana ultrapassasse os 49.000 habitantes. É certo que o município era o maior do estado, perdendo terras para vários outros lugares que se tornaram municípios também, mas seu progresso atual não combina com a quantidade de habitantes apresentada. Nem eu sei, nem você entende. SÓ O IBGE SABE.



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terça-feira, 26 de novembro de 2013

GUERREIRO ALAGOANO



GUERREIRO ALAGOANO
Clerisvaldo B. Chagas, 26 de novembro de 2013.
Crônica Nº 1093

BENON, UM DOS MESTRES GUERREIROS

Não havia televisão. Rádio, muito pouco. Os divertimentos da época aconteciam com soluções caseiras, assim como o pastoril, reisado, guerreiro e pagode. O guerreiro de Alagoas, grupo de danças mais simples do que o reisado, sendo seu filho, cheio de colorido, fazia sucesso em todos os lugares. Os improvisos dos mestres, a beleza das moças brincantes (figuras), as piadas dos mateus, asseguravam as festas.
O chefe de volante policial, sargento Porfírio, era conhecido acabador de reisado, na zona rural de Santana do Ipanema, devido a sua perversidade. Contudo, nem todas as apresentações eram acabadas pelos desordeiros, como os da própria força policial. Era bom ouvir quadrinhas improvisadas que se tornaram famosas no estado:

O avião
Subiu
Se alevantou
No ar se peneirou
Pegou fogo
E levou fim...

Em Penedo, um mestre de reisado vai dando vexame, colocando em dificuldades as filhas alheias que brincam de boa fé nas fileiras dos componentes. Tudo culpa da malvada cachaça. Convidado para brincar na casa do cidadão da área rural, o grupo se desloca até ali, dança e canta a valer. Os versos do mestre, bonitos e ritmados, vão alegrando a comunidade. Entretanto o mestre vai exagerando na bebida até confundir as coisas. Um ouvinte diz para ele que estava gostando das tiradas, mas já era quase meia- noite e o amigo ainda não tinha feito uma estrofe sequer em louvor ao dono da casa que havia recebido tão bem a turma do guerreiro. O mestre improvisador admite o erro e, já esquecido de tudo, indaga o nome do dono da residência: Seu Artur, responde o interventor. E a dona da casa é Dona Enedina. O lugar é sítio Urucu. Assim o mestre pisa forte no chão, abre um sorriso de felicidade caneira e puxa os versos com a voz pastosa:

Ô Seu Artur
Ô Dona Enedina
Ô peça fina
Na fazenda deram o c...

Foi um deus nos acuda! O dono da casa mandou que os seus empregados moessem o mestre no cacete e que ficou bom na hora, na carreira que deu por dentro do mato. Bebida é coisa lorde, mas às vezes não casa bem com a história do GUERREIRO ALAGOANO.

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segunda-feira, 25 de novembro de 2013

MINHA RUA



MINHA RUA
Clerisvaldo B Chagas, 25 de novembro de 2013
Crônica Nº 2092

Vendo na Internet companheiros de infância ausentes há tempos, chegam vez em quando as lembranças dos nossos passos na aurora da vida na Rua Antônio Tavares, a primeira rua de Santana. Essa via onde moravam os meus pais estava sempre em festa pela movimentação das pessoas adultas e da meninada. Lembro muito bem da vizinhança. Ali do outro lado, na parte alta, chegava de Olivença o senhor Manezinho Quiliu com a família cheia de moças, para ornar o trecho. Do povoado Pedrão, município de Olho d’Água das Flores, veio o senhor Antônio Marceneiro, dona Maria Neris e seus filhos. Mulher de garganta boa, costureira e puxadeira do Ofício de Nossa Senhora, onde fosse convidada. Zé Urbano e Dona Florzinha com meio mundo de filhos; o esquisito Alfredo Forte, sapateiro e ermitão com duas filhas que não saiam de casa.
Aquele jogo de bola na rua poeirenta irritava minha mãe, Helena Braga das Chagas. Lá ia o Antônio Januário Neris jogando na defesa e frustrando todos os nossos ataques com suas paetadas. O senhor Júlio Pisunha fabricava colchões de junco para vender na feira. Demolido o imenso casarão, feita a reforma, Carrito passa a negociar numa bodega de esquina e aconselhar o povo. Seu Né Lecor mostrava mansidão grande nos cabelos brancos e no puxado dos cigarros. Cubava terras e diziam que na juventude fora cabra macho. Dona Ester de José Camilo lia histórias de cordel para nós. Quando as boiadas passavam até davam medo aos moradores. Seu Antônio, pai de Severino, vendia doces da distribuidora NEUSA. Ali pertinho morava Dona Zora, cujo nome me chamava atenção. Antonio Porqueiro e sua filharada moravam na casa onde fora de dona Zifina, avó do escritor Oscar Silva. Otávio Marchante fora ocupar a casa do senhor José Camilo e já era o torcedor número 1 do Ipanema, time de futebol da cidade. A ximbra, o pinhão, a bola, corriam soltos na antiga Rua do Sebo de tantas tradições. Os primeiros namoricos começavam a povoar nossas cabeças ocupadas com recreios. Na Rua Antônio Tavares (finado dono de padaria) tinha de tudo, inclusive de juventude, era MINHA RUA.


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sexta-feira, 22 de novembro de 2013

LAMPIÃO E DUMOURIEZ



LAMPIÃO E DUMOURIEZ
Clerisvaldo B. Chagas, 22 de novembro de 2013.
Crônica Nº 1091

LIVRO  "LAMPIÃO EM ALAGOAS".
Vila Sertãozinho (atual cidade de Major Isidoro). Lampião exigiu do fazendeiro major Amaral, certa quantia. O fazendeiro alegou que não tinha no momento, mas Lampião, abusado, ordenou que um portador fosse buscar onde tivesse: “Vá e diga lá que se não vier o dinheiro, toco fogo nesta peste, mato o gado todo e o major também vai no ‘pacote’. O portador foi à vila apelar para a família do major. nessas alturas, muita gente apavorada abandonou à rua. A mulher do fazendeiro iniciou a reza num rosário implorando pela vida do esposo e  pela vila. Os filhos reunidos tentavam resolver a situação. O jovem Dumouriez Amaral era seminarista, estudava em Roma e estava com a família naquela apertada  hora. Juntaram o que puderam e o seminarista fez questão de levar. Lampião ficou impressionado com a coragem do rapaz e a força sobrenatural que ele trazia. Abrandou suas exigências e ouviu o seminarista dizer:
─ Capitão, nós só temos esse dinheiro espero ficar satisfeito e soltar meu para agora mesmo!
Lampião, já dominado, fez ar de riso e obedeceu ao rapaz. Em seguida Dumouriez o demoveu de invadir a vila. Não houve problema.
Lampião foi embora rumo a Lagoa do Jirau, fazenda entre  Palmeira dos Índios e Cacimbinhas e dali seguiu para Pernambuco.
A vila de Sertãozinho é hoje a progressista cidade de Major Isidoro, localizada no centro da Bacia Leiteira de Alagoas. Estava situada em zona perigosa, passagem de cangaceiros, uma vez que Lampião gostava de entrar no estado pela região de Mata Grande/Água Branca e sair entre Cacimbinhas e Palmeira dos Índios para alcançar as terras pernambucanas. Em quase todas as suas incursões a Alagoas, o bandido usava esse trajeto.
Ao sair naquele momento da fazenda do major Amaral, Virgolino, no município de Cacimbinhas, bateu e estuprou uma moça, recebendo uma praga raivosa do cantador repentista famoso na época, Manoel Nenem. Quanto ao caso da fazenda Brás, poderia ter terminado em tragédia ,não fosse o entendimento entre LAMPIÃO E DUMOURIEZ.
* Livro Lampião em Alagoas.


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