quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

FALE FIADO

FALE FIADO
Clerisvaldo B. Chagas, 1º de março de 2012.

 AGUARDE DIA 23

 Vou pagar o objeto comprado, quando o comerciante se anima e puxa conversa. Conversar às vezes atrasa, às vezes adianta e nem sempre traz proveito. Mas de uma maneira geral, ensina e descobre. Mesmo um papo ligeiro com um cabra embriagado pode render para o pensamento alguma coisa boa, uma inspiração para um poema, uma piada para o humor adiante, uma reflexão profunda e mesmo até um palpite para o jogo do bicho. Quer dizer, então, que falar em “jogar conversa fora”, pode ser de muito proveito se a conversa vem de fora para dentro. Diz o comerciante, “entrando por uma perna de pato saindo por uma de pinto” que o homem deve estar preparado para todas as ocasiões. Quer dizer que você não sofrerá impactos significativos numa brusca situação difícil como um assalto, um acidente, um insulto ou uma notícia de que arrebatou sozinho o prêmio da loteria. Será mesmo que isso funciona? E se funciona, marca certo em qualquer ocasião ou somente em algumas? Isso faz lembrar o professor universitário que deu aula a um jumento. Embora as pessoas contem as coisas já embaralhadas e o original perca-se de boca em boca, disseram mais ou menos assim, em compra terceirizada:
          Em Fortaleza os alunos não gostavam de determinado professor advogado daquela escola. O mestre vinha de outro estado para ministrar suas aulas à noite na universidade. Certa feita, os pupilos resolveram protestar contra a presença do professor, mas de forma diferente. Colocaram um jumento dentro da sala de aula, saíram e ficaram à espreita. O professor adentrou a sala e, vendo somente o jegue naquele ambiente refinado, pôs os óculos e iniciou um longo discurso em direção ao asno que apenas balançava as orelhas e batia as pestanas. A palestra continuou animada pelo tempo exato da aula até o toque estridente da campainha. Os alunos admirados com a reação do palestrante terminaram invadindo a sala, aplaudindo o professor e tornando-se dali em diante, uma plateia infalível em todas as presenças do mestre. O homem tornou-se ícone. Aconteceu ou não, nem sei. Foi em Fortaleza ou em outro lugar, também não tenho certeza, mas o comerciante, a princípio parece ter razão na afirmativa: “O homem deve estar preparado para todas as ocasiões”.
          Nem somente na Grécia vivem os filósofos. Em Santana do Ipanema, Alagoas, ele está ali despachando na caixa. Experimente-o, FALE FIADO.


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terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

IBIAPINA

IBIAPINA
Clerisvaldo B. Chagas, 29 de fevereiro de 2012

           Os verdadeiros valores de duas pernas às vezes caem no esquecimento, uns para sempre, outros hibernando. Só há pouco tempo, nós do Nordeste ouvimos falar em frei Galvão. Em um canal de TV, uma pessoa palestrava sobre a vida do santo, fazendo-me lembrar do cordel lançado por Manoel Monteiro, sobre a vida do padre Ibiapina. Esse personagem também é lembrado com insistência no livro da escritora alagoana Luitgarde Oliveira, sobre o cangaço. Segundo o autor cordelista, nasceu José Antonio Pereira Ibiapina, em uma fazenda de Sobral chamada Morro do Jaibara, em 05 de agosto de 1806. O pai havia se metido na política e foi fuzilado, um irmão foi para o degredo em Fernando de Noronha e, a mãe de Ibiapina morreu. Os seus planos de se tornar sacerdote foram adiados para que ele pudesse tomar conta dos irmãos. Ibiapina mudou-se para Pernambuco, ingressou em um Curso Jurídico e, em 1828, saiu formado em Direito. Aos 26 anos, o jovem estava para casar quando a moça fugiu com um primo. José Antonio foi ainda Delegado e juiz em Quixeramobim. Após pelejar no campo jurídico, Ibiapina abandonou tudo e dedicou-se à Igreja aos 47 anos de idade.
          Naqueles tempos de secas e doenças como o sarampo, tifo, malária, padre Ibiapina começou a percorrer os estados do Ceará, Piauí, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Paraíba, socorrendo os pobres como podia. Como as pessoas eram sepultadas nos lugares ermos, o padre chegou a construir dezoito cemitérios. Construiu estradas, igrejas, capelas, reforma em Matriz. Abriu poços, construiu escolas, casas de caridades e abrigos para órfãos. Açudes não foram esquecidos pelo padre que procurava matar a sede do povo. Inúmeros lugares foram beneficiados pela sua força como São Pedro, Santa Luzia, Brejo Santo, Sobral, Areia, Missão Velha, Gravatá do Jaburu, Crato, Barbalha, Açu, Baixa Verde, Santa Fé, Bezerros, Mossoró, Souza, Cajazeiras, Milagres, Porteiras, Goianinha, Serra da Mãozinha, Bananeiras, Jaicós, Mata Virgem, Santa Cruz, Araripina, Flores, Salgueiro e outros lugares mais.
          Ainda segundo, o autor, o padre Ibiapina encerrou seus feitos no planeta Terra em 19 de fevereiro de 1883, com 77 anos de idade. Expirou em solo paraibano em casa que ele próprio fundou, na freguesia de Arara. Sua “viagem” aconteceu às 15 horas, após o padre dizer: “Estou vendo Maria, ela me chama, já vou”. E assim partiu IBIAPINA.


















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O HOMEM GELADO

O HOMEM GELADO
Clerisvaldo B. Chagas, 28 de fevereiro de 2012

          Quando o assunto é futebol, o torcedor brasileiro tem acompanhado a Seleção com olhares de jacaré, quando muito como os de hipopótamos. A euforia típica da nossa pátria foi desaparecendo com as decepções que se acumulam, deixando a pergunta rolando no espaço qual folha de algodão seda. O algodão seda é uma planta típica do sertão nordestino, pequena, esverdeada e feia que nasce em lugares mais degradados pelo homem. Além de bastante frágil, apresenta uns rolos parecidos com jenipapo ou legítimos papos de peru. Daquele complexo no meio do cercado, desprende-se o tal algodão seda, quase transparente que é levado pelo vento brando; ora sobe, ora desce e voa para todos os lados conforme os caprichos da aragem. Pois assim vai se sentindo o torcedor da amarelinha, muitas vezes, além da decepção, revoltado com a peste da frieza do treinador. Sentimos que do jeito que vai a coisa, vamos ficando cada vez mais distante da liderança mundial da redonda. A incerteza corrói há muito a segurança do fanático, do comum, do esporádico. Escolheram um homem para comandar a equipe brasileira que parece sem emoção, sem sangue e sem assunto.
          Bolando aqui, bolando ali, a seleção brasileira parece contaminada com o ritmo sem ritmo do treinador. Vamos apreciando aquela coisa irritante, peladeira, sem vida que provoca dor até em dente de alho. Não duvidamos da capacidade dos jogadores convocados, mas é um harém para um pobre coitado que não sabe nem começar. Assim a tristeza bate no peito de cada um e, amigos e familiares, na poltrona, entreolham-se com um sorriso amarelo após o jogo e deixam escapar sonoros palavrões com o desempenho do amontoado de Mano Menezes. Duvidamos todos que o Brasil possa chegar a lugar algum, com isso que está aí. Se treinador ganha jogo ou não ganha, mas deixa passar para a torcida uma sensação de poder mágico que influencia o ânimo de quem ouve uma entrevista. Esse empurra-empurra com a barriga que o técnico vem fazendo não deixa esperança nenhuma no bisaco. O senhor Mano não tem carisma algum e poderá até chegar a ser o campeão do mundo, mas até agora parece apenas um galego que tenta levar o povo com palavras.
          O jogo de hoje, seja qual for o resultado, não irá provar nada. Se o Brasil ganhar, “ganhou de uma seleção fraca que até a minha avó ganharia”. Se o Brasil perder, “perdeu por que o frio intenso da Europa dominou os jogadores, já era esperado”. E se empatar, sem dúvida alguma ainda será o pior resultado, pois alimentará com colher gigante a incerteza que vem predominando. Quem quiser apostar a hora é essa. Ganhando, perdendo ou empatando a desconfiança ainda reinará no deserto, na praia, na montanha ou sob belíssimas nevascas para congelar ainda mais o técnico Mano Menezes, o HOMEM GELADO.

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domingo, 26 de fevereiro de 2012

FOGO NO GELO

FOGO NO GELO
Clerisvaldo B. Chagas, 27 de fevereiro de 2012

          Quem contava as maravilhas da Antártida, era o meu professor que depois se tornou famoso, Douglas Apratto Tenório, no Colégio Guido de Fontgalland, em Maceió.  Apontador na mão escorregando pelo mapa do “Continente Gelado”, Apratto, discorria em complemento ao meu velho “mestre-enciclopédia” Alberto Nepomuceno Agra, do casarão Ginásio Santana. Certo de que falava para uma turma pequena, mas interessada, Douglas mantinha uma linha séria e agradável para os amantes da natureza. Víamos o branco do gelo nas palavras do professor e sentíamos a ambição do mundo pelos recursos do subsolo daquele continente. O professor casava suas aulas de Histórias com as da Geografia; na verdade, exibia ambas as matérias apaixonantes, uma vez que o casal há muito já existia. Falava no acordo entre os países exploradores da Antártida, da dificuldade de funcionamento dos motores na baixa temperatura, da fauna marítima, da participação do Brasil nos estudos científicos na base que assegurava sua fatia de pesquisas.
          Agora vamos observando com tristeza, cerca de cinco anos de estudos em diversas áreas do conhecimento, sendo transformados em cinzas. Essa quentura sinistra no gelo do Sul da Terra parece tramar contra os avanços bem sucedidos do Brasil, parecendo coisa proposital. Vai lembrando a destruição da base de Alcântara que impôs sérias consequências às nossas pesquisas do espaço; o misterioso surgimento do “bicudo” no Nordeste destruindo seus algodoais concorrentes dos campos americanos. E o pior é que o incêndio que será investigado pela Marinha Brasileira, levou a vida de duas pessoas da Estação Comandante Ferraz. A retirada às pressas do pessoal da base para o país chileno, foi uma grande frustração e nos pareceu com uma humilhante derrota e vergonhoso carão de adulto para criança. Só quem vive montado na paciência da pesquisa, décadas seguidas, sabe o que é a dor de perder cinco anos de laboratório e anotações. Nesse caso, a única vitória foi o resgate das vidas dos que sofreram com o sinistro do deserto de gelo. Por outro lado, pode ser que a tragédia desperte a vontade de muitos mais cientistas brasileiros por atuações nos segredos do “Continente Branco”.
          Ficam registrados os nossos lamentos e a torcida pelo recomeço de nossas ações em torno do Polo Sul. Fazer o quê. Estão lembrados do Instituto Butantã? As chamas parecem inimigas do País em todos os setores de estudos. Será o Benedito?! Base de Alcântara, Instituto Butantã, estação da Antártida: fogo no ar, fogo na terra, FOGO NO GELO.

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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

SERTÃO VELHO DE GUERRA
Clerisvaldo B. Chagas, 21 de fevereiro de 2012

          Tenho dentro dessa trincheira de letras, muito lutado pelo Sertão alagoano. Os escritores santanenses saíram cedo da terrinha. Logo que publiquei meu primeiro trabalho, romance “Ribeira do Panema”, não parei mais de berrar feito bode na caatinga em busca de socorro para o nosso semiárido. Sozinho e Deus nessa trincheira, durante várias décadas, lutando, notadamente, contra o ciúme doentio de quem muitas coisas podem barrar e podem elevar. Felizmente chegou a Internet, sistemas que abriu às portas para grandes oportunidades dos que antes tinham os seus trabalhos cerceados. Hoje ninguém mais pode colocar pedra no seu caminho, pois o desvio pela web é imediato. E aqueles que sempre nos queriam ver com mãos atadas, contemplam fungando no próprio “cangote” o vôo sereno do urubu ou a rapidez voraz do gavião. Agora novos talentos são revelados escrevendo aqui, acolá, jogando as peias da timidez no lixo da estrada. Uns têm fôlego curto, outros conseguem prosseguir com certa regularidade, procurando ir mais longe aos seus escritos. Para eles e para nós, a Internet veio como dádiva e os antigos senhores do cabresto não tiveram mais como encabrestar ninguém. Às vezes vem uma vontade medonha de mostrar a prova dos nove. Matar a cobra e mostrar o pau e a serpente. Citar nomes dos poderosos, seus feitos e suas covardias que ainda hoje fazem doer. Entretanto, “para frente é que se anda”, diz o nosso caboclo alagoano.
          Eu não queria entrar na vereda perdida que não leva a lugar nenhum.  Mas, como disse em trabalho pretérito, iniciamos um artigo com um rumo previamente traçado, quando alguma coisa que não sabemos explicar vai desviando as rédeas do nosso objetivo. Estava no quadro-negro, verde ou branco, a peça em cartaz sobre a palma forrageira, desenvolvida para resistir à cochonilha, uma vez que a nossa palma forrageira possui história internacional e sertaneja de alto e incalculável valor. Entretanto, muitas vezes o burro empanca na encruzilhada e não tem pancada na cabeça que sirva. O cavaleiro, aborrecido, parte em novo rumo sem querer. Ninguém, ninguém mesmo quer ser saco de pancadas nem depósito inútil de guardar mágoas. Porém, bem que diz o cantador repentista: Tudo passa na vida, tudo passa/ mas nem tudo que passa a gente esquece.
          Esse traçado de hoje nem precisava ter saído. Como dizia os poetas sobre inspiração, vamos aguardar a pacificidade de Minerva que a deusa nessa sexta-feira não se encontra nos aposentos do Olimpo. Pelo menos vamos deixar baixar a poeira nessa estrada desse SERTÃO VELHO DE GUERRA.


















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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O BICHO COME

O BICHO COME
Clerisvaldo B Chagas, 23 de fevereiro de 2012

Diz um ditado que “em tempo de murici, cada um cuida de si”. Outra sabedoria popular afirma que “não há quem não cuspa para cima que não lhe caía na cara”. Contemplando a luneta do Oriente Médio, a situação de Israel não pode causar inveja a ninguém. É certo que venceu uma guerra contra vários países vizinhos, em apenas seis dias, ações que deixaram orgulhosos os filhos israelitas e o aliado, da América do Norte. Sendo a única nação desenvolvida da Ásia Seca, Israel continua brigando com a vizinhança que pratica religião diferente da sua. Está cercado de inimigos por todos os lados, continuando sua história bíblica do tempo dos filisteus. Contando sempre com os Estados Unidos, seus aliados na região, Israel parece angustiado com a evolução vizinha e suas novas tecnologias. Os judeus têm intrigas com todos. Mesmo assim, diante da evolução inimiga com possíveis novas alianças, os judeus continuam provocando sem querer devolver as terras conquistadas na guerra dos seis dias. Além disso, fala em paz, mas não quer parar de construir casas para colonos do seu povo nas terras alheias confiscadas. Até a nação americana mesmo, não aconselha esse perigoso desafio provocativo, porém, Israel continua insistindo.
         Mais à frente, na questão do Irã, tem uma vontade danada de invadir logo aquele território, mas sabe perfeitamente que o Irã desenvolveu novas e poderosas armas, não sendo tão fácil uma invasão convencional. Por outro lado ainda tem dúvidas se irá receber o apoio maciço do antigo aliado da América. Apesar dos percalços, continua provocando os palestinos com suas construções. O Irã ameaça melhorar seu padrão bélico para riscar do mapa o país judeu. A agonia israelita transborda e ele sabe que não pode mais esperar pelo desenvolvimento iraniano com suas intenções anunciadas. No caso palestino, Israel cospe para cima. Na situação do Irã vive tempo de murici; não pode ficar esperando por americanos.  Na sua análise, uma guerra convencional contra o Irã não resolveria. A solução única é um ataque nuclear para riscar de vez os iranianos da face da terra, assim como Estados Unidos fizeram com Hiroshima. A resposta poderia ser uma reação em cadeia dos parceiros iranianos, inclusive dos dois gigantes asiáticos. Daí para um fim de mundo faltaria pouco. Ninguém se espante com a notícia nuclear em qualquer uma dessas próximas madrugadas.  E como disse nosso amigo cientista, João Tertuliano, o calendário maia continua de pé.
        Pelo visto, Israel agindo sempre como Davi contra as presepadas de Saul, coloca os pés pelas mãos e passa a imitar o próprio Saul. As mesmas brigas do começo são as do meio e, tudo marcha também para as do final dos tempos. A coisa está feia, amigo, dramática, horrível mesmo! Nenhum país gostaria de estar na pele de Israel com seu dilema imediatíssimo, perigoso e sem escape que faz lembrar as afirmações nordestinas brasileiras: “Se ficar o bicho pega, se correr O BICHO COME”.

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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

CINZAS

CINZAS
Clerisvaldo B. Chagas, 22 de fevereiro de 2012.

           Para quem gosta da folia de Momo, infelizmente, tudo hoje se transforma em cinzas. Tem início nesta quarta o período da Quaresma, valorizado no calendário cristão ocidental. Nas igrejas católicas do Brasil, as igrejas realizam o simbolismo significativo, geralmente, logo às sete horas da manhã e às sete da noite, quando os fiéis comparecem para o sinal das cinzas. O ato convida as pessoas à reflexão, o dever católico a ser cumprido, mudança de vida para melhor, moral e religiosamente, lembrando a efêmera passagem por esse mundo e a certeza inflexível da morte. A Quaresma ocorre quarenta dias antes da Páscoa, sem contar os domingos e os feriados. Dependendo da data da Páscoa, o seu posicionamento varia a cada ano. A oscilação ocorre entre o início de fevereiro até a segunda semana de março. A quarta-feira de Cinzas para quem quer vivenciá-la parece dia de paz e de mistério que conforta o indivíduo nessa caminhada com tantas incertezas que o mundo nos oferece. Os sons dos batuques tão vivos das brincadeiras são trocados pela cadência suave das apresentações religiosas.
     Missas são celebradas tradicionalmente nesse dia quando os participantes são abençoados com cinzas pelo padre que preside a cirimônia. O sacerdote marca a testa de cada celebrante com cinzas, deixando uma marca que o cristão normalmente deixa em sua testa até o pôr do sol, antes de lavá-la. É bom lembrar a tradição simbólica do Oriente Médio de jogar cinzas sobre a cabeça como sinal de arrependemento perante Deus. Encontramos essas passagens na Bíblia, onde são relatadas em vários livros. Deus gosta da pessoa que se arrepende de atos não recomendados por ele no Livro Sagrado. Ainda se referindo ao Catolicismo Romano, Cinzas é um dia de jejum e abstinência. Seguindo as orientações da Igreja, o seguidor evita comer carne na Quarta-Feira de Cinzas e na Sexta-Feira da Paixão, num sinal simbólico e respeitoso ao Criador. Mesmo para os brincantes do Carnaval dos três dias, a quarta oferece a quietude, vez em quando ofertada ao espírito, para a sua recuperação do agito vibrante da folia.
         Para outras religiões, a quarta-feira pode até possuir significado diferente, porém, sempre dentro da observação moral ou religiosa do ser humano. Para viver plenamente um dia místico, não é necessario que o homem seja seguidor assíduo de qualquer corrente religiosa. O seu recolhimento e reflexões podem lhes trazer um bem que será aplicado com bastante êxito no seu cotidiano. Enquanto para alguns o dia é apenas um feriado normal de cura da ressaca, para outros é uma oportunidade valiosa de avaliação e descanso espiritual. Reflexão profunda no dia de hoje não faz mal a ninguém. A vida é limitada. E embora muitos não queiram saber, vícios e paixões, logo, logo, transformar-se-ão em CINZAS.













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terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

PENSAR EM DEUS

PENSAR EM DEUS
Clerisvaldo B. Chagas, 21 de fevereiro de 2012.
          Perdem-se à distância os sons da folia na madrugada. Ganha espaço no tule da memória um romantismo secreto nos longos estertores da segunda. Surgem no céu da melancolia estrelas, Lua, nebulosas que acompanham o cantarolar do banheiro, o balançar da cadeira, um chorar esconso de violões. Derramam-se devaneios em idílios ilusórios de boca rósea, beijos apaixonantes e cândidos aconchegos. Voa sutiã jogado, cai à camisola seda, sufoca perfume-veneno, enigmáticos da hora. Mulher que pode ser (fantasia ou não) resíduos sutis de melancolia:

“Eu amanheço
Pensando em ti
Eu anoiteço
Pensando em ti
Eu não te esqueço
É dia e noite
Pensando em ti
Eu veja a vida
Através dos olhos teus
Me deixa ao menos
Por favor pensar em Deus (...)”

 “Todo poeta é sistemático, professor! O senhor também?” Queima-me a indagação do vate-repentista. O que é ser sistemático? A lágrima atrevida tenta romper trançados e corrompidos cílios. E a radiola, a eletrola, a “mataola” aperta a fonte sentimental do sonhador tocado. Um vozeirão inconfundível e inexistente decreta e elimina com dardo amoroso e manso:

“(...) Nos cigarros que eu fumo
Te vejo nas espirais
Nos livros que eu tento ler
Em cada página tu estás
Nas orações que eu faço
Eu falo no nome teu
Me deixa ao menos
Por favor pensar em Deus”.

Tisnam-se os horizontes da aurora. Morro ou vivo um pouco lembrando você. Melodias dão sobrevida à paixão não domada, ao roliço pescoço para beijos quentes. Voltam os violões, o acordeom, o perfume agreste dos seus cabelos. É um sensível procurando a vida e confessando o que antes deixou de ser confessado. “Alô, alô, vai para a deusa da blusa branca; assina, você já sabe”. Deixa-me ao menos, por favor, PENSAR EM DEUS.  



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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

FLORIANO E SILVÂNIA

FLORIANO E SILVÂNIA
Clerisvaldo B. Chagas,  20 de fevereiro de 2012.
Crônica Nº 722

          Quando morre pessoa conhecida nossa, ficamos desconcertados, pois, apesar da certeza, nunca estamos preparados para a passagem, nem a nossa nem a dos amigos e parentes. Quando a despedida é violenta, mais desconcertos ainda e, na tragédia dupla, ficamos, além de assustados, sem acreditar que o fato tenha mesmo acontecido. O caso de Floriano Salgueiro Silva, filho do industrial Domício Silva (compadre de meu pai, Manoel Chagas) e da professora Iracema Salgueiro, colega da minha mãe Helena Braga das Chagas, deixa a sociedade santanense perplexa e enlutada com a fatalidade da BR-316. Pessoa de nível social elevado, entretanto, Floriano levava uma vida simples, desde o nosso coleguismo nos bancos escolares do Ginásio Santana. Estava sempre contribuindo com inúmeras formas para o melhoramento do nosso município, mantendo um relacionamento pacato, decente e dinâmico em todas as esferas de Santana. Como gostava do tema “cangaço”, convidou-me por cerca de três vezes para à sua fazenda à margem do São Francisco para dali visitarmos a Grota de Angicos, onde se deu a hecatombe conhecida mundialmente. A ele, meses atrás, havia dedicado uma das minhas crônicas sobre o assunto.
         Silvânia Maria Lima Silva, sua esposa, ministrava suas aulas de Literatura na Escola Estadual Prof. Mileno Ferreira da Silva. Mestra em fazer amizades, possuía energia positiva contagiante, sendo querida no trabalho ou em qualquer lugar aonde chegasse com o seu astral. Foi a nossa Vice-gestora durante uma campanha para a direção da Escola Estadual Mileno Ferreira. A tão amada pelos alunos, colegas e funcionários, Silvânia Maria, transferiu-se para outro plano ao lado daquele a quem amava, num fatídico sábado do Rei Momo, dia escolhido por Deus para uma conversa a sós com o ilustre casal para Santana do Ipanema e para ELE, o Pai que tudo sabe. E lá se vão uma nobre ex-colega e um amigo que ministravam exemplos de vida diariamente na “Rainha do Sertão”.
          Santana recebe golpe duplo no desfalque difícil do preenchimento em curto prazo. Ultimamente estávamos com a ideia de, justamente, com Floriano e outro ex-colega que atualmente vive em Maceió, promovermos um encontro com os que estudaram conosco no Ginásio, cerca de cinquenta, para um encontro de um dia em lugar aprazível do município. Difícil agora pensar no mesmo assunto novamente. Para Santana enlutada, ficou a saudade dorida e as ótimas lembranças de um casal encantador: FLORIANO E SILVÂNIA.


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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

LAMPIÃO, GATO BRABO E O POVO

LAMPIÃO, GATO BRABO E O POVO
Clerisvaldo B. Chagas, 17 de fevereiro de 2012.
          O caso Eloá caiu no gosto da mídia brasileira, principalmente durante o julgamento do assassino. Algumas emissoras, com os últimos acontecimentos pífios, resolveram, então, se aferrar ao julgamento do jovem Lindemberg dando ênfase extra, mastigando o filme por quase 24 horas diariamente. Agora, com os meios de comunicações disponíveis, a sociedade pode acompanhar de perto tudo que tem vontade e até com grande precisão. Em décadas passadas não havia, claro, o aparato que se tem hoje e, o máximo que se podia fazer, era ditar os acontecimentos em páginas de jornal ou em raras revistas. Nem sempre os matutinos chegavam no mesmo dia durante a circulação. Lugares longínquos quando recebiam impressos, liam a data de três dias, uma semana, um mês antes. A repercussão de casos como o de Eloá, ficava restrita à cidade do acontecimento e, quando muito ao município.
          Em Santana do Ipanema (Al) também houve tumulto defronte a casa do seu primeiro juiz, Manoel Xavier Acióli ─ nomeado em 1924 ─ quando a multidão exigia a soltura do preso Josias Vieira, conhecido na serra da Remetedeira e na cidade como Josias Mole. Josias, como o apelido atestava, era um pobre rapaz, pacato e humilde que defendera o pai quando este levava uma surra do vizinho. Anunciado o óbito, Josias é preso, revoltando o povo que o conhecia como um bom rapaz que não merecia a prisão. Pressionado por todos os lados, o juiz Acióli resolveu soltar o prisioneiro. Uma vez na rua, Josias transformou-se de humilde e pacato em arruaceiro e arrogante. Uma vez que havia matado um e ganhara o beneplácito social, dava um trabalho danado à polícia. Preso pela segunda vez, quando quase não sai mais da cadeia. A se ver livre e moído de cacete, Josias desapareceu de Santana do Ipanema, indo bater em Piranhas onde, por qualquer tolice matou o segundo. Dessa vez foi pedir abrigo nas hostes de Lampião. Ao contar sua história a Virgolino, foi submetido a teste em tiroteio com a polícia e foi aprovado. Recebeu novo apelido de Lampião. Ao invés de Josias Mole, como antes, passou a ser conhecido como Gato Brabo.  Josias esteve em Juazeiro com o chefe e teve seu nome registrado no Cordel. Foi ele quem guiou Virgolino à invasão à vila de Olho d’Água das Flores em 1926, quando o bando deixou o Juazeiro do Norte com o chefe travestido de capitão.
          Gato Brabo ia ficando famoso no bando quando resolveu desertar. Disfarçou-se de barbeiro, mas foi reconhecido e preso, após um esboço de reação, perto de Arapiraca. Nos dias aproximados da morte de Lampião, Josias deu entrevista ao Diário do Recife, falando nas perversidades de Virgolino. Algumas pessoas afirmaram que Lampião, no dia em que invadira Olho d’Água das Flores, não tentara entrar em Santana, graças ao Josias que aconselhara o desvio. Assim, Lampião ganhara um guerreiro e perdera um desertor. Sobre a multidão pressionando o juiz, o caso Josias Mole tem certa semelhança com o de Lindemberg. Depois vem uma costura com agulha de saco entre LAMPIÃO, GATO BRABO E O POVO.  

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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

SE TODO MUNDO CANTASSE

SE TODO MUNDO CANTASSE
Clerisvaldo B. Chagas, 16 de fevereiro de 2012.
(Blog do autor: clerisvaldobchagas.blogspot.com)

MOTE: “Se todo mundo cantasse
  Era mais fácil viver”.

 “Quem canta seu mal espanta
Isto é uma verdade
E nesta oportunidade
Cantar então me adiante
Cantar hoje é minha planta
É o que devo fazer
Depois de fazer dizer
A este povo de classe
Se todo mundo cantasse
Era mais fácil viver

Canta até o meu vizinho
Como eu canto também
Canta quem vai e quem vem
Canta o boêmio no vinho
Canta até o passarinho
Na hora que vai beber
Canta depois de comer
No tempo lhe dando passe
Se todo mundo cantasse
Seria fácil viver.

Nesse tempo tão precário
Como estamos vivendo
Toda pessoa sofrendo
Lhe faltando o necessário
Então não é ordinário
Um cantor se intrometer
Cantar para o desprazer
Desaparecer da face
Se todo mundo cantasse
Seria fácil viver.

Até mesmo um ser doente
Na cama dum hospital
É atacado do mal
Mas deve cantar contente
Que cantando ele é quem sente
Nessa vida algum prazer
Já não se pensa em morrer
Para honrar a sua classe
Se todo mundo cantasse
Seria fácil viver”

Clodomiro Paes e Francisco Joel. Campina Grande em 22-24 de agosto de 1975.











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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

ONU PARA TRÊS

ONU PARA TRÊS
Clerisvaldo B. Chagas, 15 de fevereiro de 2012.

 A ONU (Organização das Nações Unidas) foi fundada em 1945 após a Segunda Guerra Mundial para substituir a Liga das Nações, com o objetivo de deter guerras entre países e para fornecer uma plataforma para o diálogo. Ela contém várias organizações subsidiárias para realizar suas missões. Atualmente existem em torno de 193 estados-membros, falando sobre quase todos estados soberanos do mundo. A organização acha-se dividida em instâncias administrativas, porém, quem mais aparece é o Conselho de Segurança que decide determinadas resoluções de paz e segurança. Quando se trata de cargo individual, surge com maior destaque o de Secretário-Geral, cargo ocupado atualmente, desde 2007 pelo cidadão originário da Coreia do Sul, Ban Kimoon. Mantem-se a ONU com as contribuições voluntárias dos seus Estados membros. Para melhor funcionar em termos de mundo a Organização dispõe de seis idiomas considerados oficiais que são Árabe, Chinês, Inglês, Francês, Russo e Espanhol. Acontece que o desgaste é grande dessa organização, pois a quantidade de membros no Conselho Permanente de Segurança continua a mesma, para esse universo de 193 membros.
          Uma Organização do porte da ONU, não se renova e continua na mão de países como os Estados Unidos, China e Rússia, que na prática, sempre que podem fazem suas manobras para que a ONU aja de acordo com seus interesses particulares e não como órgão independente como no início foi proposto. O atualíssimo caso da Síria é uma vergonha, uma ignomínia quando a Rússia e China vetam uma intervenção das Nações Unidas em solo sírio. Enquanto isso, o ditador daquele país continua massacrando seu povo, derramando sangue da população com seus armamentos pesados e negando apoio médico aos atingidos pelos modos nazistas. Grita em vão por socorro o povo de Damasco, o povo do país inteiro que morre às centenas, mas esbarra no apoio covarde da China e da Rússia àquele ditador maluco. Enquanto isso, o mundo assiste estarrecido o massacre que acontece naquela parte do mundo que tem pagado muito caro por permitir regimes como o atual. A resistência de China, Rússia e Estados Unidos à renovação do Conselho e a uma reforma na carcomida Organização chega a ser patética, pois querem continuar com uma ONU particular, mandando e desmandando como costumam fazer com o povo dos seus respectivos países.
          Enquanto os demais membros não se rebelarem contra a ditadura que reina por ali, tudo continuará como antes. Cada um dos membros do Conselho, principalmente os três, permanecerão com a sua ONUZINHA ou vestida nos quintais das suas casas. E se os bois continuam aceitando cangas e ferrões no pescoço e nos fundilhos, que paguem, então, a eterna covardia do medo. O filme continua o mesmo: ONU PARA TRÊS.









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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

MENDIGANDO FORÇA

MENDIGANDO FORÇA
Clerisvaldo B. Chagas, 14 de fevereiro de 2012.

          Mais uma vez o esquema de segurança de Alagoas decepciona, frustra o cidadão do interior sem chance nenhuma para se defender. De vez em quando sai à propaganda que não deixa de ser verdadeira, sobre novas aquisições de viaturas, coletes, armas para a polícia. O leigo pensa, então, que o que faltava já foi preenchido e agora a eficácia do policiamento será nota mil. Puro engano! Parece que o quadro real da Briosa ainda está longe da modernidade exigida nos dias atuais no combate ao crime que surge de toda natureza. Num estado territorialmente pequeno como Alagoas, ainda se reclama de efetivo curto. Batalhão em Maceió, Arapiraca, Santana do Ipanema... Mesmo assim não se encontram policiais na hora da precisão como foi o caso do assalto em Mata Grande, região serrana do alto sertão. Segundo foi noticiado, os bandidos ─ apenas para uso da expressão popular  ─ deitaram e rolaram com um bando de vinte homens armados de fuzis e metralhadoras. O que iria fazer em uma cidade tradicional que já botou Lampião para correr, um soldado apenas de plantão?
          É sabido que na cidade de Mata Grande havia na década de trinta, uma unidade do exército para espantar os bandidos da região. O seu período foi relativamente curto, porém, enquanto esteve ali à unidade verdinha, cangaceiros passavam por longe, não tendo sido registrado nenhum caso de ação bandoleira no município. Cidades como Mata Grande, Delmiro Gouveia, Água Branca, por exemplo, situadas no extremo oeste do estado, precisam de um reforço policial permanente, pois além da distância da capital, é zona de fronteira tripla, não se admitindo um isolamento total em matéria de segurança. O estado tem que adquirir helicópteros, que hoje não são mais bichos de sete cabeças, pois o Brasil entra no cenário mundial com a segunda frota dessas aeronaves tão úteis para o policiamento. Pelo menos em cada regional deveria haver um desses aviões com uma flotilha capaz de inibir qualquer ação criminosa de grande monta como a ocorrida na manhã de ontem em Mata Grande e Canapi.
          O investimento maciço em segurança pública é um dever do estado, sobremaneira nesses tempos difíceis onde à bandidagem é sempre protegida pela brandura carinhosa das nossas leis. Será que é preciso novamente voltar aos tempos das volantes como as do tenente João Bezerra, sargento Aniceto Rodrigues ou sargento Joaquim Grande? Enquanto isso o Alto Sertão fica em polvorosa MENDIGANDO FORÇA.



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domingo, 12 de fevereiro de 2012

PRESENTE PARA GREGO

PRESENTE PARA GREGO
Clerisvaldo B. Chagas, 13 de fevereiro de 2012.

 Nenhum brasileiro gostaria de viver o drama da Grécia no presente momento. Já sofremos enormemente parte das dores que afligem os nossos irmãos do outro lado do Atlântico. Os apertos desconcertantes ministrados pelo FMI, ainda repercutem na mente dos que sofreram em suas unhas quando o fundo dava as suas ordens no Brasil. Ninguém sabe quando vai melhorar as agruras nas terras de Sócrates e nem quando chegará à paz necessária para se viver. O parlamento daquele belo país já aprovou o plano de austeridade e resgate financeiro, levando o povo às ruas num protesto violento. Geralmente a má administração pública sempre desemboca no mar que afoga pobres e funcionários públicos. É igual a chavão popular sem limite algum de repetência. Para quem não faz bem o dever de casa, recebe a visita do senhor “Gringo”, com gravata comprida e óculos de grau mais seu contemporâneo caderno de fiados. Começa examinando a pele e espichando o couro do paciente em soluços terminais. Surgem receitas de injeções miraculosas cujos efeitos são alérgicos para as classes básicas da pirâmide. Uns troços que amargam e queimam o porvir, o futuro, a esperança.
          Para continuar na zona do Euro, a Grécia baixou o pescoço para a canga da austeridade financeira, motivo de protesto e gritaria da sua população que fica sem entender o desmantelo. A exigência dos credores foi de fato crua e refletiu sem doce, sem mel, sem o açúcar na capital Atenas. A noite violenta caracterizada pelas manifestações traduz a negativa popular contra a beberagem que chega pelos carrascos. As vítimas de situações como essa, já sabem que irão para a tortura da demissão de emprego, cortes no salário, problemas com a previdência, com a aposentadoria, com a alimentação e tudo o mais que gira em torno da sobrevivência. Quando as autoridades condenam o vandalismo em uma democracia, esquecem o desespero de milhões de famílias que receberão as ferroadas que vêm de cima. Seria a mesma coisa de espancar mandando a vítima sorrir. Vem da boca do primeiro-ministro que os três objetivos do plano aceito pela Grécia, são o saneamento das finanças públicas, o restabelecimento da competitividade do país e o reforço do seu sistema bancário. Para isso o ministro irá receber a bolada para o equilíbrio ou para continuar a danação que maltrata o povo do Mediterrâneo.
          Entre a cruz e a espada, o medo triste da bancarrota; do fantasma da crise que passou a morar nos corredores da Europa; da reação popular que vai bater os ossos de raiva com a crise interna. O país aguarda a dinheirama que deve chegar logo para pagar seus credores ansiosos. Enquanto isso, vamos mudando os ditados inventados pelo povo. Antes, uma oferta que iria dar trabalho, mas camuflada em coisa boa, era chamada “presente de grego”. Agora é o próprio FMI quem embrulha a “macumba”, ornamenta o pacote, borrifa extrato de rosas e escreve no cartão: PRESENTE PARA GREGO.






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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

A AMEAÇA DOS CARPEROS

A AMEAÇA DOS CARPEROS
Clerisvaldo B. Chagas, 10 de fevereiro de 2012.

 Não deve ter razão os invasores de terras do Paraguai, que parece entrar na xenofobia da Europa. Quando pessoas que trabalharam naquele país ou visitantes por algum tempo voltavam ao Brasil, falavam que o Paraguai não produzia nada; que era um povo muito preguiçoso e que só havia ali contrabando, preguiça e alcoolismo. Não foi só de uma pessoa que ouvimos essa afirmação. E como não trabalhavam mesmo, os brasileiros foram entrando no território e produzindo como ainda hoje produzem. Passaram muitas situações difíceis vivendo e trabalhando incansavelmente em um lugar de língua e costumes diferentes, enfrentando todas as adversidades. Muitos, devido à persistência, progrediram e casaram com moças paraguaias conquistando assim a binacionalidade. Muitos impostos foram recolhidos ao governo daquele país e empregos para quem quisesse trabalhar. Somente agora, após o progresso e a consolidação dos brasiguaios, parece existir um ciúme doentio de quem não fez o dever de casa e espicha os olhos para a riqueza do suor alheio, agindo como bandidos invasores.
          O pior de tudo é que o governo do Paraguai, pela sua atitude morna, também parece apoiar o movimento infeliz, dizendo uma coisa e fazendo outra para encorajar os carperos. Caso seja feita uma investigação séria, descobrir-se-á as origens desse movimento suspeito que possa trazer sérios transtornos para o Brasil. Já temos um passado de desconfiança entre as duas nações, devido a maior guerra latina já realizada, quando a Inglaterra teceu a trama entre os dois países, para o confronto. É bom perguntar com pergunta séria, quem está por trás desse emaranhado agora. Quem tem interesses escusos para um novo conflito entre as duas nações da América do Sul. Fez muito bem em sair uma comissão do senado brasileiro para visitar o senado do país vizinho e o executivo para se inteirar do movimento criminoso que estar acontecendo.
          É bom lembrar que ainda existe um atraso de mentalidade muito grande na América Latina, onde povos e governos de alguns países ainda não conseguem pensar como nos tempos reais do presente. A mente tacanha do colonialismo ou do caudilhismo continua vigorando em alguns idiotas que somente falam em poder e revolução como se ainda estivessem nos tempos românticos de Fidel. Mas essa unidade pretendida pelos que moram na América do Sul, também incomoda aos de fora que às vezes tentam jogar irmão contra irmão para tirar proveito, pois não querem uma América do Sul unida e forte. Esperamos que os senadores brasileiros tenham êxito nessa missão ao Paraguai, embora seja difícil persuadir um movimento organizado e um governo comprometido. O Planalto deve estar muito preocupado com A AMEAÇA DOS CARPEROS.


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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

LAMPIÃO CONTINUA VIVO

LAMPIÃO CONTINUA VIVO
Clerisvaldo B. Chagas, 8  de fevereiro de 2012.

 Após uma fase exaustiva na elaboração do livro “Lampião em Alagoas”, finalmente encerramos o nosso trabalho. Acabamos de colocar todas as ilustrações, as quais chamamos de figuras, inclusive fazendo uma homenagem a certa pessoa, colocando merecidamente sua foto antes da apresentação como motivo de honra. Aguardamos apenas um episódio ocorrido em Mata Grande e Piranhas, vivido pelo saudoso vereador santanense Abdon Marques com os chefes de volantes Odilon e Euclides Flor, que poderá ser encaixado a qualquer momento. Esperamos, enquanto damos retoques na capa e na capa de trás, as apresentações do filho de Corisco, economista Silvio Bulhões e a do grande pesquisador do cangaço no baixo São Francisco, Inácio Loyola, ex-prefeito de Piranhas e no momento deputado estadual. Para quem aprecia este tipo de literatura, com certeza ficará extasiado com tantos acontecimentos em solo alagoano (limite do nosso livro) e por certo muito meditará. Também para os santanenses que nunca ouviram falar sobre o assunto em Santana do Ipanema, um choque de surpresa vem aí com movimentação de cangaceiros e forças volantes em detalhes surpreendentes.
          Calculamos um trabalho em torno de 220 páginas, afirmando que algumas entrevistas deixaram de ser realizadas em algumas cidades cicunvizinhas, devido ao volume de trabalho. Isso quer dizer que ainda temos muito material para ser acrescentado numa segunda edição, provavelmente. Quase todas as fotos ─ mais ou menos 60 ─ já foram publicadas e são quase indispensáveis no tema Lampião, porém, algumas são inéditas e outras não muito batidas. Sobre Santana, aproximadamente, dez são exibidas e fazem parte das relíquias da cidade. Começaremos agora a fase orçamentária em diversas gráficas do estado e de fora, em busca do melhor preço, sem abrir mão da altíssima qualidade como merece o leitor fiel e exigente. Se você possui uma editora e quer publicar nosso trabalho, entre em contato conosco. Por outro lado, até a próxima semana, ainda poderemos encaixar um episódio sobre Lampião, verídico e acontecido em nosso estado, caso você queira nos contar. Contatos com Marcello Fausto ou Clerisvaldo Chagas.
          Quanto ao lançamento de “Lampião em Alagoas”, anunciaremos em breve, logo que enviarmos o danado para a gráfica. Caso autoridades de outros municípios queiram, poderemos realizar lançamentos em qualquer uma delas, dentro e fora do estado. O homem morreu, mas o nome LAMPIÃO CONTINUA VIVO.

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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

ROMANCE DO AMOR
Clerisvaldo B. Chagas, 8 de fevereiro de 2012.

 Resolvemos brindar o leitor amigo, com alguns versos do II Congresso Nacional de Violeiros, ocorrido em Campina Grande, Paraíba, entre 22 a 24 de agosto de 1975. Na ocasião eu fazia parte da mesa julgadora. Cantava a dupla Clodomiro Paes, de João Pessoa e Francisco Joel (Cotinha) também de João Pessoa, quando foi sorteado o mote: “No encontro soberbo dos olhares, aparece o romance do amor”. Das oito estrofes improvisadas escolhemos quatro:

No olhar está realmente a atração
Com que chama a atenção desses viventes
Porque as pessoas atraentes
Dominam em verdade o coração
O olhar é verdade é a visão
De trazer tudo isto com valor
Realmente isto aí é um fator
Que conquista um desses exemplares
No encontro soberbo dos olhares
Se encontra o romance do amor


Igualmente uma índia apaixonada
Como foi a famosa Iracema
Que tomando do vinho da jurema
O guerreiro avistou de madrugada
Sendo isto na terra da jangada
Que o índio lhe dava mais valor
Ela disse “Eu sou a tua flor”
Lá na terra dos grandes verdes mares
No encontro soberbo dos olhares
Se encontra o romance do amor


Eu recordo Isabel uma princesa
Que um dia olhando pra Gastão
Ela teve no peito a sensação
Do seu gesto bonito com beleza
O amor lhe entrando de surpresa
Por um homem que foi superior
Ele disse: “serei o teu valor
De uma vez se nunca desprezares”
No encontro soberbo dos olhares
Se encontra o romance do amor

Numa reflexão do meu passado
Não sei se merece esse decoro
Mas tenho que lembrar certo namoro
De uma deusa que viveu sempre ao meu lado
Ao primeiro encontro está provado
Que senti o perfume e o sabor
Foi dizendo: “se queres meu calor
Está na sujeição de mais me amares”
No encontro soberbo dos olhares
Se encontra o romance do amor.



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terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

CAMONGE APRENDENDO

CAMONGE APRENDENDO
Clerisvaldo B. Chagas, 7 de fevereiro de 2012.

         Gosto de conversar com indivíduos inteligentes e também com pessoas humildes, gente do povo. Nessa escola da vida, vale muito o enxergar que é diferente do ver. Assim, aprendemos proveitosas lições fortemente úteis para todos os momentos da existência, ditadas pelos simples. Quando falo em inteligentes, quero me referir, aos que muito estudaram e trazem na bagagem esse conhecimento. Tive a satisfação de receber uma visita que trazia as duas coisas juntas, humildade e conhecimento. Conversamos bastante sobre todos os campos, eu ouvindo muito mais do que falando. A visita descrevia as coisas e de vez em quando me fazia uma pergunta. Como sua queda é para o misticismo, ensinamentos religiosos dominavam a sua linguagem. Entramos no catolicismo, passamos pelos ensinamentos orientais, resvalamos na rosa-cruz e demos de frente com o kardecismo. Foi aí que entramos pela tenda dos milagres, pois a cidade de Santana do Ipanema, nas últimas semanas, tem soltado tantos foguetes que deve estar enricando os fogueteiros. O visitante, então, falou sobre o padre Cícero Romão Batista, afirmando que enviara quinze milagres a ele atribuídos, à comissão que estuda o assunto para elevá-lo à santidade.
          Duas situações diferentes foram me reveladas sobre o padre Bulhões e o padre Cirilo, ambos, párocos de Santana em época passada. Sobre o padre Bulhões, religioso que dominou à cidade por quase três décadas, o cidadão falou que o sacerdote estava enciumado com a ida do povo ao Juazeiro. Recebendo um devoto com essa intenção dissera: “Você deveria pagar sua promessa por aqui. O padre Cícero é um homem igual a mim”.  Mesmo assim o romeiro viajou e contou a Cícero à conversa com Bulhões. Romão apenas respondeu: “E foi? Diga a ele que vá cuidar da pingueira que está caindo na cabeça do Coração de Jesus”. Na volta, o romeiro foi à casa do padre Bulhões e  passou-lhe o recado. Bulhões levantou-se da poltrona, sem acreditar e foi olhar o quadro na parede. Estava ali a pingueira, exatamente sobre o cocuruto de Jesus. Acho que daquele dia em diante, o conceito deve ter mudado. Quanto ao cônego Luís Cirilo, segundo o visitante, também não costumava falar bem sobre Cícero Romão. Certo dia, ao fazer a barba, notou um nódulo no pescoço. Aperreou-se, foi ao Recife. Os médicos disseram que aquilo era uma questão de cirurgia e o risco grande. Cirilo fez uma promessa com o próprio padre Cícero Romão Batista, cujo agradecimento seria todo ano rezar missa em Juazeiro. No outro dia, ao passar a mão pelo pescoço, o nódulo havia desaparecido. O cônego cumpriu a promessa, todo o ano ia ao Juazeiro celebrar u’a missa.
          Sei não. O povo mistura Camões da Literatura portuguesa com tal “Camonge”, um sábio safado do imaginário que fazia suas loucas presepadas e teria morrido aprendendo mais uma lição antes do último suspiro. Um popular teria improvisado uma brasa a guisa de vela e, ele teria dito: “É Camonge morrendo, é Camonge aprendendo”.




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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

OS SANTOS E OS MILAGRES

OS SANTOS E OS MILAGRES
Clerisvaldo B. Chagas, 6  de fevereiro de 2012.

          É sabido que uma coisa puxa outra. Contemplando o trabalho de reforma que está sendo realizado na Escola Estadual Helena Braga das Chagas, vamos compreendendo a necessidade de manutenção permanente desses estabelecimentos de Ensino. Antes havia profissionais nas escolas como carpinteiros, encanadores e eletricistas, que asseguravam nessas áreas o funcionamento físico das unidades. Com o tempo passando esperava-se um melhoramento extraordinário na organização das redes escolares. O que se vê, entretanto, é o abandono dentro de décadas e décadas na rolagem do entra governo, sai governo, quando a Educação continua sendo a cacetada da vez. Ali não vamos ter direito a nenhum tipo de construção, só reforma. Pelo menos uma sala para implantação de biblioteca, serventia de alunos e moradores em geral do Bairro São José, não será construída. Imaginem uma escola central e sem biblioteca! Pedreiros e serventes continuam amontoando ninhos de pardais, desobstruindo tubos, retelhando, trocando portas e janelas que já não fecham e nem abrem para nada. Um muro enorme da escola, que foi ao chão por duas vezes, não será rebocado. Foi feito na base do chapisco e de coisa sem dono que evitou alguém ir para cadeia.
          E a Escola Estadual Padre Francisco Correia, como anda, após a queda de parte da estrutura? Construída ainda na gestão do prefeito Joaquim Ferreira, cansada de pedir socorro, veio desabar uma parte na gestão atual, quase provocando uma tragédia. O seu futuro é incerto. Matam a tradição pelo descaso e acabam de matar pela ignorância e falta de compromisso com a sociedade. Fundado em momento tão difícil para Santana do Ipanema, o Grupo Escolar Padre Francisco Correia foi a primeira escola oficial que funcionou da quinta a oitava série naquele município. Situada em lugar nobre do Bairro Monumento, a citada escola faz parte da história de Santana, onde congregou as primeiras professoras vindas da capital para educar o Sertão. O seu título não poderia melhor ter sido registrado, pois o seu patrono, além de fundador da cidade, foi seu primeiro pároco, criou lei libertária para Santana e era considerado santo pelos inúmeros milagres que realizou e foram registrados.
          A crônica, às vezes, faz como cavalo sem cabresto que foge à direção imposta pelo cavaleiro. Puxada em direção contrária, ela não quis me obedecer, deixando o opúsculo do “santo padre Francisquinho” sobre a mesa, a olhar o rumo diferente da carreira. Santana vai se desmemoriando. Ruiu a casa do padre Bulhões, desabou a igrejinha de São João e agora se esvai o antigo grupo Correia para o esgoto e o lixão do município. O descaso com a história de Santana do Ipanema, após o “Prefeito Cultura” Hélio Cabral, caminha a passos largos, patrocinado pelo poder público. O vendaval na cultura tem sido tão forte que o título desse trabalho teve seu miolo desviado. Só apelando para OS SANTOS E OS MILAGRES.
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