quarta-feira, 30 de março de 2011

A LÍNGUA DESEJADA

A LÍNGUA DESEJADA
(Clerisvaldo B. Chagas, 31 de março de 2011).

        São louváveis alguns programas encontrados em emissoras de televisão que resgatam usos, costumes e tradições regionais. Também encontramos leituras sobre esses assuntos em livros escolares, atos que indicam a preocupação de abnegadas pessoas preocupadas em divulgar páginas singelas e felizes das nossas tradições. Falam dos quilombolas, das quebradoras de coco, dos vaqueiros, dos cantadores, das atitudes populares na semana santa, dos antigos retratistas, de rezadores, benzedeiras, parteiras e mais uma porção de outros temas que enriquecem o social desse país.
       No reinado do boi pelo Brasil inteiro, surgiram várias lendas, estando à figura do ruminante sempre presente. Animal muito querido, quase sagrado, é o companheiro do homem no cotidiano do Brasil rural. Uma das lendas engraçadas e significativa é a do bumba meu boi, boi-bumbá e outras inúmeras denominações regionais a essa manifestação folclórica. A mulher do morador da fazenda chamada Catirina, estava grávida. Desejava comer língua de boi e incentivou o marido Francisco a obter essa iguaria. Para o menino não nascer doente ou com cara de boi, Francisco sentiu-se na obrigação de abater o animal do patrão, arrancar a sua língua e oferecer a mulher. O problema é que o patrão soube e condenou a morte o seu fiel empregado. A única saída encontrada por Francisco, para não morrer, foi encomendar uma pajelança realizada por um padre e um pajé na tentativa de ressuscitar o boi. Essa encenação é composta por vários personagens que cantam e dançam, tendo como ponto culminante a ressurreição do animal, comemorada com bastante euforia. Não temos certeza absoluta, mas parece que esse teatro do bumba meu boi é apresentado no filme “Vidas Secas”. Durante a época de Carnaval, em Maceió tem início vários dias antes, os ensaios sobre apresentação e concurso do boi. Muitas comunidades capricham na apresentação, nos enfeites e acompanhamentos musicais, visando o honroso primeiro lugar desse tradicional concurso. No interior, o boi ainda se apresenta isoladamente pedindo dinheiro para brincar, soltando fumaça pelo ânus a quem não coopera com o seu Carnaval.
       Juntam-se, então, as apresentações do bicho que ajudou a povoar enormes faixas de terras do Brasil, com as lendas dos desejos de mulheres grávidas, contadas quase sempre entre risos juvenis. No caso da mulher da fazenda, o desejo era comer a língua do boi. Se não fosse a eficiência do pajé, teria acontecido a tragédia do marido trucidado.
       Como uma coisa puxa outra, vamos imaginando a grande admiração e apreço que temos por alguma pessoa. Quando a decepção acontece vemos o nosso ícone desabar perante nós. Nessas circunstâncias lembramos o bumba meu boi, o boi de mamão, o boi-bumbá. Mas uma vez morta à admiração ─ ao contrário do folguedo ─ por mais que tentemos não há pajelança que ajude. Para não acontecer efeitos deprimentes é bem melhor evitar longe A LÍNGUA DESEJADA.

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terça-feira, 29 de março de 2011

DEBAIXO DA CAMA

DEBAIXO DA CAMA
(Clerisvaldo B. Chagas, 30 de março de 2011).

          Em 1975, foi lançada a música “A velha debaixo da cama”, do compositor mineiro Geraldo Nunes. Na realidade, era a “Véia” e não a velha. Essa música longa e chata fez um sucesso enorme no Brasil inteiro, sendo mesmo a consagração de Nunes. Lembramos ainda, na cidade interiorana de Santana do Ipanema, o abrilhantamento do Carnaval com as criatividades do professor de Educação Física, Reginaldo Falcão. O professor Reginaldo sempre gostou de brincar sozinho, assim como seu parente Nozinho Falcão, fazendeiro, comerciante e em certa época prefeito, que também possuía o gosto pela folia solitária. A citada música falava de uma velha que ficava debaixo da cama e criava uma porção de animais como um rato, gato, cachorro, jumento e outros mais. Quando cada animal começava a fazer zoada, era um desadoro para a velha que sempre citava a frase: “Ai meu Deus que se acaba tudo...” Pois bem, o nosso querido professor, encarnou a “Véia”, saindo pelas ruas de Santana, dessa vez com auxiliares transportando a cama e o homem debaixo com alguns pequenos animais. O sucesso das presepadas de Falcão garantiu as apresentações do insípido carnaval de rua de Santana do Ipanema.
          Quando falamos em violência, infelizmente tema obrigatório do dia a dia, estamos sentindo na pele o que o carioca passava antes das ocupações definitivas dos morros do Rio. Alagoas teria mesmo que ser primeiro lugar em alguma coisa. E se não aparece pelo bem, vai surgindo pelo negativo, por que é muito mais fácil continuarmos na selvageria desenfreada que atinge a totalidade do seu território. Recentemente, a morte de um pai esquartejado pelo filho, foi apenas um dos inúmeros crimes entre familiares que se banalizaram na terra caeté. Não estamos mais seguros nos ônibus, nos hospitais, nas clínicas médicas, nos restaurantes, nos pontos de ônibus, pois a ousadia dos nefastos, desafiadores e cínicos arrastões, prolifera no estado como ervas daninha na Agricultura. Estamos vivendo a fase negra do Rio de Janeiro ou os tempos sem leis do Velho Oeste americano. A coisa chegou a tal ponto que espetamos o troféu de primeiro lugar no cimo do pau de sebo. E o pior de tudo é ouvir declarações das autoridades que dirigem o estado. Eles falam mostrando indiferença, ingenuidade ou delírio assim como o ditador da Líbia. Quantos mais falam as autoridades mais nos sentimos perdidos. Em Alagoas, o que vale agora é a proteção divina invocada pelas diversas religiões, principalmente para quem tem merecimento. Os santos, outros guias espirituais e o próprio Jesus em pessoa, passaram a servir como batalhões da Terra, para dá conta de tantos pedidos de proteção nessa pequenina faixa triangular e violenta.
          Por aqui mesmo não tem quem dê jeito. Nem o tão falado coronel Amaral, nem Roy Rogers, nem Rock Lane, nem mesmo o homem aranha. Sofrendo todos os dias com essa realidade de casa e das ruas, não existe mais lugar seguro. Muitos são os que têm uma vontade danada de abraçar a “Véia” do compositor Geraldo Nunes e com ela morar definitivamente DEBAIXO DA CAMA.




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segunda-feira, 28 de março de 2011

OS CAMINHOS DAS ESTRELAS

OS CAMINHOS DAS ESTRELAS
(Clerisvaldo B. Chagas, 29 de março de 2011).
         
          Sendo ainda um planeta de expiação, a Terra parece socialmente injusta e desigual. Regiões marcham com cidadãos aparentemente mais evoluídos, quando outros lugares parecem o caos completo em guerras, costumes bárbaros, fome e cultura. Surgem em pontos distantes tribos selvagens, porém, organizadas dentro dos padrões tribais. Olhando-se do pé da escada a impressão é essa mesmo de uma sociedade global sem organização, sem nexo, sem rumo. Mas na escala evolutiva da Natureza, o que nos parece caos, está milimetricamente organizado. Os frutos estão presos aos galhos de origens, embora pensemos que os entrelaçamentos desses galhos estejam em desordem. Todos nós estamos viajando nessa nave Terra por apenas um motivo básico que se desdobra em dois ramos. O motivo básico é a evolução permanente da alma. Já foi dito que espírito nenhum chegará ao pai sem pagar o último ceitil. Portanto, aqui procuramos aperfeiçoar as nossas ações espirituais inseridos em corpos físicos e grosseiros próprios do Planeta. Os dois ramos do aperfeiçoamento são os do que vem para saldar dívidas anteriores e assim continuar evoluindo e os que chegam mais evoluídos com a missão de guiar (em todos os sentidos), mas não deixando também o aperfeiçoamento. A complexidade existente é que existem pessoas evoluídas e outras menos evoluídas numa escala muito variada. Assim como as pessoas, são as nações que seguem o mesmo padrão dos humanos. Enquanto alguns países já estão navegando no espaço, outros continuam na Idade da Pedra, mas que alcançarão o mesmo estágio dos primeiros a milhares de anos, nesse ou em outro planeta, se migrarem para lá. Assim também, dentro de uma mesma nação evoluída, encontramos grupos de indivíduos completamente atrasados em relação à maioria.
          Povos com mais estudos descobriram e passaram a utilizar a energia dos átomos. Não deixa de ter sido um dos grandes feitos da humanidade a descoberta do átomo e seus desdobramentos. É de se notar os grandes benefícios da energia atômica empregada na saúde, principalmente em hospitais os mais diversos espalhados pelo globo. Entretanto, como o sexo é bom e tem o seu lado perigoso nas mais diferentes formas, a energia atômica tem também a sua parte perigosa, não somente quando é usada para o mal, como no caso das bombas atômicas que abarrotam os arsenais dos países belicistas. A forma levada em frente para o bem também pode desencadear situações desagradáveis para todos, como nos casos da energia acumulada para fins pacíficos. Isso quer dizer que apesar do desdobrar da Ciência e dos cérebros privilegiados dos que vieram para descobrir e guiar parte da humanidade, o homem ainda continua distante das exigências do Criador. Tanto os meios científicos quanto às funções religiosas possuem acertos e falhas que ilustram OS CAMINHOS DAS ESTRELAS.


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domingo, 27 de março de 2011

O GANSO TRAÍDO

O GANSO TRAÍDO
(Clerisvaldo B. Chagas, 28 de março de 2011).

          Ao vermos reportagens de animais de estimação acompanhando os donos, destacamos cabra, porco e bode que fogem do tradicional. Isso faz lembrar o senhor Walter, filho de Marinheiro Amaral, comerciante de sapataria de luxo por muito tempo em nossa cidade. Walter era um apreciador da boemia, das farras prolongadas e diárias. Foi fundador do cine Wanger, no Bairro Camoxinga, um prédio enorme perto do Largo Maracanã. Ali atraía pessoas com filmes, atualmente chamados pornôs. A estrutura atual do cine serve como sorveteria e rádio comunitária. Walter criava um ganso que o acompanhava pelas ruas de Santana e com ele frequentava os bares dividindo goles, piadas e conversa mole de quem bebe. Todos apreciavam a amizade entre a ave anseriforme e o seu dono. Certa feita a sociedade ficou inconformada ao saber que o senhor Walter de Marinheiro havia matado e servido o amigo ganso como tira-gosto em mais uma das suas inúmeras farras.
          Genival Wanderley Tenório, fazendeiro e comerciante, foi prefeito de Santana do Ipanema na gestão 1978-1982. Não gostava muito de despachar na prefeitura, preferindo bares e outros ambientes parecidos. Inaugurou o serrote Pelado com três imagens religiosas e rebatizou o lugar como Alto da Fé. Inaugurou a praça defronte a Igreja Matriz de São Cristóvão e, então, Hospital e Maternidade Dr. Arsênio Moreira. Lajeou uma passagem sobre o riacho Camoxinga, acesso à Escola Mileno Ferreira. Calçou algumas ruas, entre elas, a subida de acesso ao serrote Pelado. Talvez para ajudar o amigo das brincadeiras, Genival passou alguns poderes para Walter que servia como mestre de obras improvisado. Quando o povo encontrava qualquer obra daquele jeito, falava: “Isso é bem engenharia de Walter de Marinheiro”.
          Houve alguns acontecimentos importantes no período gestão de Genival. Foi lançado o livro “Geografia Geral de Santana do Ipanema”, deste autor. Houve o assassinato do ex-prefeito, por três vezes, Adeildo Nepomuceno Marques. Foi inaugurada uma agência da Caixa Econômica Federal, funcionando a princípio onde era a Cadeia Velha. Houve a instalação do DETRAN em nossa cidade. Foi constatado o ato inaugural da “Rádio Correio do Sertão”, pioneira no semiárido. É lançado o livro “Carnaval do Lobisomem”, também deste autor. Foi construído o Conjunto Residencial São João. Construído ainda o conjunto habitacional defronte o estádio e o cemitério, com 103 casas. Foi ampliada a capela do Padre Cícero, no Bairro Lajeiro Grande. Foi inaugurado o Centro Bíblico no Bairro Camoxinga. Santana perde terras para o novo município do antigo Riacho Grande. Morreu o ex-interventor do município Frederico Rocha. Faleceu o Cônego Luís Cirilo, da Paróquia de Senhora Santa Ana. Clerisvaldo lança seu segundo romance “Defunto Perfumado”.
          Pois foi nesse cenário em que vivia Genival e sua sofisticada, elegante esposa Salete, que o ganso passeador, leal e companheiro enfrentou a panela. Conquista-se e mata-se. Você pode não achar, mas existe coisa muito mais profunda no ato desnaturado contra o fiel, carinhoso e amicíssimo GANSO TRAÍDO.



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quinta-feira, 24 de março de 2011

MEIA PORTA

MEIA PORTA
(Clerisvaldo B. Chagas, 25 de março de 2011)

       O presidente dos Estados Unidos fez o seu giro pela América Latina, pontilhando apenas três países. O motivo resumido em três, não se sabe. Nem perguntando a ele próprio, o presidente responderia. E se respondesse, é óbvio que não falaria a verdade. E se falasse a verdade iria ofender quase o hemisfério todo. A repercussão, entretanto, da sua visita foi apática, quase inexistente. Os jornais do mundo inteiro preferiram a quentura do norte africano e a tragédia japonesa. Mas o mutismo da repercussão pode ter sido gerado na particular ação gelada, rotineira e sem vida de Barack. O que outrora causaria sensação, dessa vez conquistou apenas indiferença e sono. Os países da América do Sul, bem como os da América Central, calaram como se fosse uma combinação antecipada. Todos parecem cansados do império. Como a imprensa é a parte mais sensível dos grandes acontecimentos, a sua ausência após a visita do homem, pareceu refletir o pouco interesse no assunto. Foi por isso que os acontecimentos da Líbia e do Japão foram marcados em cima o tempo todo. Obama deve ter chegado de volta aos Estados Unidos, arrasado com a indiferença latina pela sua presença. Ele não é culpado sozinho. Os freios do congresso às suas ideias e a tradição arrogante americana, rareiam as caças nas pradarias do planeta. O presidente deve ter chorado com seus botões pela indiferença do Sul a sua visita, consequentemente a seu país. Foi levantar a popularidade e voltou pior. Ao chegar a Casa Branca, encontrou a porta fechada. Ficou preso por fora. A porta falou simbolicamente sobre o giro que acabava de fazer.
       Atolado até o pescoço no Iraque e no Afeganistão, os Estados Unidos não conseguem fazer brilhar a estrela do presidente que eles mesmos elegeram. É, porém, muito cedo para dizer se Obama está no lugar certo no tempo errado. Todo o plano de Barack no passeio latino voltou-se contra. Tanto é que, para aliviar às pressões antiamericanas em todos os lugares, entregou o comando a outros, nos ataques a Líbia. Não quis se desgastar mais ainda, muito embora possa ter alegado outras razões. Procurar notícia de Obama nos jornais ficou mais difícil.
       Enquanto isso, sigamos outros movimentos que estão ajudando a mudança global. Afinal, não se sabe tudo. Existem por aí tais bastidores, que são bichos quase invisíveis e que somente andam com o focinho nos ouvidos alheios. Longe dos bichos uma coisa é coisa; se estão os bichos, coisas não são coisas. Para os chamados agora “gestores”, nem tudo é conveniente que o povo saiba. Meu amiguinho, esse negócio de política é complicado até em casa, quanto mais no exterior. Veja o Obama, compadre. Triste que só urubu no inverno. Ao chegar ao Salão Oval da Casa Branca e encontrar a porta fechada, deve ter associado, como nós, à entrada da América Latina com apenas MEIA PORTA.


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COLHER DE ENGENHO

COLHER DE ENGENHO
(Clerisvaldo B. Chagas, 24 de março de 2011).

       Enquanto meu pai ensinava-me a ciência da vida, minha mãe preocupava-se com Educação e Cultura. Entre as suas lições, entrava o básico das etiquetas, tão apreciadas pelas sociedades grã-finas. Normalista criada na capital, vocacionada para o Magistério, Helena Braga destrinchava para nós como se comportar a mesa. Vivendo ainda numa cidade sofrida do interior ─ Santana do Ipanema ─ uma criança entre oito ou dez anos não tinha muitas oportunidades de usar as boas maneiras ministradas por Helena. Vivíamos ainda numa cidade de ruas empoeiradas ou lamacentas onde o progresso era sempre o último a chegar. Naquela época tínhamos férias no mês de julho além do prolongamento de final de ano: dezembro, janeiro e fevereiro. Só retornávamos às aulas no mês de março. As escolas verdadeiramente ensinavam, mesmo com menos tempo em relação à atualidade e com os parcos recursos existentes. Com a chegada das férias, eu me deslocava ao povoado Pedrão (pedra grande) pertencente à vila de Olho d’Água das Flores. Numa jornada de quatro léguas, o garoto viajava, ou em carro de boi com a tia Delídia ou em garupa de cavalo com Manoel Anastácio, a quem chamávamos tio.
       O Pedrão era tudo o que eu queria. Típico povoado nordestino onde a vida passava devagar, mas não faltavam diversões para o menino curioso que recolhia sem saber material para seus futuros romances. Com o abastado casal dirigente do Pedrão, eu ia vivendo uma espécie de casa-grande e senzala, engajado pleno nos dois mundos do povoado. A Igreja, a lagoa, os pomares, o cemitério, a casa de farinha, a bodega... Tudo representava a vida simples do campo, palco de inúmeros episódios que formavam o todo.
       Manoel Anastácio era um homem moreno, alto e magro conhecedor do mundo, liderança local. Certa feita, tomávamos o café da manhã quando recebi uma irônica, comparativa e inexplicável lição. Notando os meus modos à mesa, o meu tio observou que eu havia mexido o café com açúcar e experimentado o preto líquido com a colherzinha. Disse-me, então: “Na Zona da Mata, nos engenhos, eles usam colherinhas com um buraquinho no centro”. Naturalmente, pela idade, não dava para perceber a crítica. Pensei apenas porque aqueles tolos iriam comprar colheres normais para furar e mexer café. Depois de adulto fui pensar no assunto e não cheguei à conclusão nenhuma. É melhor queimar os beiços com café quente para mostrar educação ou experimentar logo com a colherinha?
       A vida da gente é uma sucessão de erros e acertos. Muitos problemas enormes, às vezes exigem soluções simples. Se minha mãe nunca me ensinou o uso da colher furada, nunca também nos exigiu queimar os beiços. Se o meu tio fosse vivo eu lhe iria cobrar o ensinamento incompreensível da crítica sem sentido. Espero que o leitor possa decifrar a lição que pula da mesa para os salões refinados das elites. Eu mesmo nada entendi da filosofia tapuia do meu tio. Mas o que é isso, comadre! COLHER DE ENGENHO.

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quarta-feira, 23 de março de 2011

MEU PAI

MEU PAI
(Clerisvaldo B. Chagas, 23 de março de 2011).

       O céu. O céu estava claramente azul. As nuvens de rendas brancas espelhavam as bordas prateadas de o arranjo solar. Um pincel encantado dava um toque cinza no interior dos capulhos, variando os contrastes. Aqueles algodões maiores também exibiam o simbolismo chumbo. Ameaças sutis de chuvas que não vinham. Pedaços de enfeites que escondem lágrimas contidas. Retalhos de prata que esvoaçam no poente. O céu. Quase o mesmo céu dourado de uma tarde igual. Quase o mesmo céu atípico que levou a minha irmã Neidinha. Dossel que compartimenta o meu coração em Helena, José Almir, Neide e Manoel Chagas. Miríades de letras amorosas que se fundem entre amor e universo. Sangra propenso coração. Corações têm olhos e choram. Ah! O tempo fecha o mormaço e envia mensagem na leve brisa que desalinha os cabelos, que beija na face, que suaviza o peito. É um extirpar de espinhos, um curativo na alma, um assopro na fé. Logo virar o Ângelus chavear o espaço vespertino. E vem a lua. Uma lua grande, enorme, magnífica, liberando fagulhas douradas, ladeando o caminho iluminado de Manoel. Chagas. Ouro tremeluzente sobre serrotes, montanhas, cordilheiras, mares e oceanos promulgando vitória. É a glória do ser. Sobre o ter.

A morte não é nada
É sonho fugidio
Aspecto bravio
Mas irmã disfarçada
Louçã alvorada
Que renova a semente
A vida da gente
É idílio tragédia
É teatro é comédia
Onde reina. Somente.

Em um mundo distante ornamentado
Onde os dons virtuosos são primeiros
Onde os sonhos são sonhos verdadeiros
Onde a luz não morre no banhado
Na tez do papiro desenhado
Logotipo que marca o lutador
Nem precisa repouso o viajor
Desabrocha constante sinfonia
Ganha vida a vida todo dia
Nas planícies repletas de amor

       Chagas não se estraga. Lembre-se disso, MEU PAI.
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segunda-feira, 21 de março de 2011

O CASAMENTO DA RAPOSA

O CASAMENTO DA RAPOSA
(Clerisvaldo B. Chagas, 22 de março de 2011)
(Ler nota de rodapé)

        Nos últimos anos comentamos coisas que vem acontecendo na Educação, notadamente na área sertaneja. Os fatores da crise que se abate em nosso ensino, porém, não é somente da zona sertaneja, mas toma conta do país em seus estados e regiões. Quando os professores falam nos problemas com o alunado, logo aparecem pedagogas para culpar o professor, unicamente para mostrar serviço ou bajular quem lhes deu emprego. Citar o velho chavão que “o aluno não quer nada” (irrita a burocracia). Fomos vendo em sala de aula e fazendo às contas na ponta do lápis sobre os 30% de evasão escolar, sob o olhar apático de certas direções. Afora o não querer nada, amontoam-se problemas nas escolas levando o professor em situação de desespero, a apelar para o número altíssimo de licenças médicas, pois o Magistério passou a ser uma fábrica de fazer doidos. Recentemente, em determinado lugar, nenhum aluno quis auxiliar no laboratório de informática das escolas, pois não podia lidar com sites de relacionamentos e coisas parecidas. Por outro lado, governos estaduais e municipais deixam de cumprir as leis maiores em benefício da educação, recusam vencimentos justos e não incentivam em nada. Escolas existem com mais de trezentos alunos onde o diretor é forçado pelas circunstâncias a exercer várias funções na unidade, inclusive de vigia, coordenador, agente de disciplina e porteiro. Continua o magistério, apesar da boa vontade de alguns, sendo o saco de pancada dos dirigentes das três esferas.
       Para reforço das palavras acima, acabamos de ler ampla reportagem em um dos maiores jornais do país. Diz à fonte que os professores recém-concursados da rede estadual do Magistério de São Paulo estão se demitindo na proporção de dois por dia. Isso tudo pela falta de condições nas escolas; pelas salas lotadas (no início) desinteresse dos alunos e baixo salário. Fala a reportagem sobre um professor concursado que depois de enfrentar quatro meses de estágio para poder exercer a função, desistiu no primeiro dia de aula. Disse o professor que apenas uma aluna prestava atenção, o restante da classe estava batendo papo pelo celular. O cidadão logo percebeu que aquilo iria levá-lo à loucura e pediu demissão imediata. Ganhar apenas 1.000 reais por vinte horas seria mais um fator de depressão. Sessenta outros colegas seguiram o mesmo caminho, pois estavam amedrontados e sentiam-se desrespeitados. A média de exoneração a pedido passou a ser a descrita acima.
       Quando os dirigentes falam sobre Educação é um céu. A realidade na grande maioria das escolas, se não chegar a inferno, tira dez em purgatório. As propagandas sucedem-se como Hitler fazia na Alemanha. É preciso um rolo compressor permanente em cima dos dirigentes de estados e municípios. O problema é que tudo termina em chuva fina, dessas que surgem no Sertão quando mostram o arco-íris. Isso quer dizer que ao invés de encontramos alta qualidade nas escolas, o que vemos é O CASAMENTO DA RAPOSA.

Nota: Às 23 horas de ontem, faleceu o ex-comerciante, Manoel Celestino das Chagas (Manezinho Chagas) aos 93 anos de idade. Manoel era marido da professora Helena Braga e pai do autor desta página. O sepultamento está previsto para as 16 horas de hoje (terça). O corpo está sendo velado na OSACRE, Praça Frei Damião, em Santana do Ipanema.
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domingo, 20 de março de 2011

NEGRO E MULHER

NEGRO E MULHER
Clerisvaldo B. Chagas, 21 de março de 2011)
      
       Sobre a visita do senhor Barack Obama ao Brasil, foi tudo dentro do previsto por nós na última crônica sobre o assunto, intitulada: “Que Queres Tu”. A única coisa que não previmos e nem podia, foi a de ordenar o ataque à Líbia daqui do palácio brasileiro. Fora os aborrecimentos das exigências de segurança, tudo aconteceu normalmente em Brasília. A recepção popular foi indiferente. Entre as autoridades, os mesmos protocolos. O casal americano tentando ser simpático; a presidenta também. Nos discursos esperados, Dilma foi determinada ao cobrar altivamente igualdade entre as duas nações e um assento permanente no Conselho da ONU. Foi firme na cobrança e habilidosa no modo de cobrar. Para a primeira cobrança, Obama reforçou o pedido da presidenta, até por que ele sabia que estamos vivendo novos tempos e não a era das ordens de Washington. Mas o segundo pedido foi evasivo (como havíamos previsto). Obama sabe que o Brasil precisa muito daquele assento e preferiu fazer charme, sustentar o pedido na mão, para com ele obter muitas concessões do nosso país para poder liberá-lo Todo político é manhoso, em qualquer parte do mundo. Quanto a ordenar o início do ataque à Líbia, destacamos a malícia programada. O Brasil se absteve na votação sobre o uso da força, não foi? Pois bem, ele ordenou o ataque daqui para dizer, primeiro, que ainda era o todo poderoso e impressionar o governo brasileiro. Segundo, para fazer a propaganda dos caças americanos em licitação, mostrando indiretamente sua eficácia na Líbia. É como quem diz: “preste atenção Dilma, como os nossos aviões são os melhores. Compre os nossos caças”. Terceiro, tentou mostrar perante os líbios que a opinião do Brasil ao não uso da força nada valia, pois ordenara o ataque do próprio território brasileiro dentro do palácio com presidenta e tudo.
       No Rio de Janeiro, ainda encontrou alguns vaidosos e curiosos no Teatro. O discurso ali foi bonito, mas nada de extraordinário. Reconheceu o Brasil que o mundo já conhece. As palavras foram muito mais para historiador do que para político. Não impressionou e nem ofendeu. Veio afagar o Brasil interessado em livrar-se do petróleo e das piadas de Chávez. Estar querendo lucros nos negócios da Copa e das Olimpíadas, mais investimentos brasileiros para gerar empregos por lá e aquele resumo que a sabedoria do nosso povo fala: “Não dá prego sem estopa”.
       Vamos aguardar agora as repercussões internas desta semana e as opiniões externas. Depois, prestar atenção nos fatos concretos que poderão acontecer entre os dois países. Por enquanto, os assuntos em evidência são relativos à Líbia e ao Japão. A diplomacia brasileira nos pareceu muito melhor estruturada, mais madura e sabendo o que realmente quer e como quer. Dilma está melhor do que a encomenda. Não se pode mais abaixar à cabeça e nem outras partes mais sensíveis do corpo, nem para americano nem para embaixada alguma. DIGNIDADE é o que todos brasileiros esperam do novo governo. Se não foi apoteótico, também não foi horrível assim, o encontro da nova simbologia no poder: NEGRO E MULHER.




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quinta-feira, 17 de março de 2011

OLHOS DE CORUJA

OLHOS DE CORUJA
(Clerisvaldo B. Chagas, 18 de março de 2011).

       A reforma política é necessária, mesmo sendo feita pelas personalidades que fazem parte desse sistema. Político cuidando da política. Mas como não existe outro caminho para o povo brasileiro, vamos apenas aguardando as decisões dos senhores deputados e senadores. Quando existe confiança popular em seus dirigentes, parece que as coisas caminham com mais facilidade e menos preocupação. Entretanto, com o forte desgaste sofrido nos últimos anos, é de se desconfiar que político vote contra projetos que não o beneficie, até particularmente. Enquanto existir a desonestidade desenfreada no Legislativo, não se pode dizer que os habitantes brasileiros estejam felizes e domados. Mesmo que muitas medidas do Legislativo aconteçam amparadas em leis, revoltam a população que trabalha honestamente e paga seus impostos em dia. Como pode um cidadão que enfaticamente trabalha para o engrandecimento do seu país, aplaudir medidas como a do aumento exorbitante do “salário” dos políticos? O descontentamento das ruas é sempre causa perigosa para uma democracia sem direito a voz. Ninguém engoliu ainda os tais 62%. Mesmo por que a massa, com ou sem poder de compra, continua montada no cavalo em osso do salário mínimo. Mesmo assim, um pouquinho hoje, um pouco amanhã, medidas sérias tapam mais um buraco de rato. Dizer que não haverá mais reeleição para executivo, é uma verdadeira maravilha que maltrata os que carregam a síndrome de “dono”. Contudo, isso deveria valer também para o Legislativo, com mudança muito mais profunda.
       Quando o povo não está satisfeito com os políticos do seu país, vai tentando encontrar ícones de outras nações, para aplaudir. Nesse caso, desiludido com tudo, o cidadão também procura ídolos na música, na novela, no cinema e até nas imundícies que recheiam as comunicações. Obama vem aí. Fracassado diante de tantas expectativas, vem tentar golpe publicitário no país, reunindo uma multidão para conversar o que o povo chama de “abobrinha”. Nada de bom trará, apenas assuntos rotineiros que não elevam o Brasil em nada. Para isso andou, dizem, comprando publicidade em importantes emissoras brasileiras para juntar curiosos. Quer levantar a indiferença do seu povo à custa dos mais dóceis do Brasil. E se o povo daqui está tiririca com seus representantes legisladores, deverá comparecer diante de Barack que estar ficando muito esperto.
       No Senado, na Câmara, a animação é de velório. Mas ainda não deixa de haver muitas manobras entre as desacreditadas raposas sedentas de poderes. A plateia externa vai acompanhando com certa indiferença o movimento rotineiro. Ver a parte da frente, espia a parte de trás, enxerga no claro, mas vacila em contemplar os bastidores. Escuro indecifrável acessível somente aos premiados pela natureza que possuem OLHOS DE CORUJA.


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VAI NO BORNÁ

VAI NO BORNÁ
(Clerisvaldo B. Chagas, 17 de março de 2011).

       Bornal, embornal ou, segundo as massas da caatinga, simplesmente borná. Trata-se de uma peça interessante confeccionada em tecido que as pessoas ainda usam com faixa sobre os ombros, cruzando o peito. Os embornais serviam e servem como uma bolsa plástica ou pequena mala para transportarem tudo que for possível durante as viagens. Como em décadas passadas o homem do Sertão andava muito a pé, aquele depósito ambulante estava em voga levando comida, roupas e quinquilharias. Os bornais viraram peças famosas e estudadas, principalmente por causa daqueles que lhes deram visibilidade. Os cangaceiros atraiam a atenção pelo modo singular de traje e enfeites. O embornal era peça tão importante quanto às armas, pois, tanto conduzia a comida de sobrevivência, quanto balas sobressalentes. A polícia perseguidora do cangaço também usava os bornais com as mesmas finalidades. Por aí se vê que o embornal era peça indispensável para uso em trânsito. Com o cangaço, os bornais adquiriram um novo visual. Passaram de peças lisas para estampadas em bordados criativos que atraíam os olhares aguçados dos sertanejos. Os embornais mais famosos do Brasil foram os conduzidos por Lampião e sua companheira Maria Bonita. As peças eram admiradas por causa dos desenhos em cores, cobiçadas devido à fortuna que transportavam. Como Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, também era compositor, fez chegar ao povo cantiga simples, porém, muita apreciada, com o título de “Mulher Rendeira”. Uma das estrofes dizia:

      “Olê mulé rendeira
Olê mulé renda
               Chorou por mim não fica
           Soluçou vai no borná”

       O escritor santanense Oscar Silva, antes de publicar livros, trabalhara em diversas profissões, tentando sobreviver numa época péssima para empregos. Terminou como soldado de polícia pertencente ao batalhão encarregado de combater o cangaço, dentro da era 1930. O batalhão fora dividido, segundo ele, em várias faixas de acordo com as funções. Oscar não pertencia à faixa dos destemidos que saiam em grupos chamados “volantes”, para combates diretos com bandidos. Fazia parte de uma elite que auxiliava o comando em seus contatos permanentes. Andava sempre com livros na mão sublinhando em vermelho os erros cometidos pelos autores. Certa feita participara de uma empreitada contra cangaceiros no lugar chamado Caldeirão dos Guedes, município de Cacimbinhas, Alagoas. Por causa dessa única circunstância forçada, o futuro escritor passara a andar com um bornal sobre os ombros. Dizia o homem em uma das suas crônicas, que o bornal não servia para nada, pois ele nunca mais saíra como volante, mas pelo menos o ocupava para carregar seus livros. Passara a enfeite. Certa ocasião um camarada apontou para aquela peça de tecido e perguntou para que servia. Oscar, sentindo-se acuado e ridículo, olhou para um canto, para outro e, sem utilizar longas explicações, foi lacônico, gozador e objetivo, lembrando a célebre cantiga do cangaço: “Soluçou VAI NO BORNÁ”.




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terça-feira, 15 de março de 2011

O VEI E A FIA

O VEI E A FIA
(Clerisvaldo B. Chagas, 16 de março de 2011).

       Em visita a caríssimo paciente no hospital geral Dr. Clodolfo Rodrigues de Melo, fomos conhecendo alguns setores possíveis, pelo menos de relance. É realmente admirável o que vamos observando nesse moderno hospital em Santana do Ipanema, próximo às faldas da serra Aguda. E dentro daquela rotina prevista pelos dirigentes, saímos colocando em prática o espírito de observação do pesquisador atento. Muitos acompanhantes dos seus doentes, ficam defronte a unidade, aguardando, conversando, desabafando. Assim aparecem inúmeras informações que vão sendo filtradas de acordo com o interesse de quem ouve ou faz perguntas. Surgem pessoas da região ribeirinha, do médio e alto Sertão, entrelaçam-se em conversas variadas, curtas ou compridas, que revelam as nuanças do dia a dia. A mulher da cidade de Delmiro Gouveia está sozinha e tem parto de risco. O cidadão de Pão de Açúcar veio visitar o pai. A moça de Jacaré dos Homens tem problemas respiratórios. O tema varia para transporte, chuva, calor, política, dinheiro. Complementam-se as informações nos pequenos negócios criados ali bem perto. É o mercadinho, a sorveteria, a lanchonete onde se houve muitos desabafos sobre o aumento exorbitante do transporte de moto. De dois reais para três e três meio, dizem que os motos taxistas estão aproveitando a falta de coletivo.
       Deixamos um pouco essa feira discreta para descansar a vista. O cenário deslumbrante de morros que circundam a urbe. Os destaques de pontos longe na cidade, como as duas igrejas paroquiais, o acender das luzes pelo centro, pelos bairros, atestam uma visão nobre, bela e analítica para geógrafos, poetas e românticos em geral.
       Estando embevecido com os arredores, inclusive com o vermelhão do terreno defronte, onde serão erguidas as instalações da Universidade Federal de Alagoas, uma voz chama atenção. É de certa mulher morena e jovem que procura apressar a subida de um idoso em cadeira de roda, para a ambulância. O idoso, calvo de voz baixa, parece não aguentar a implicância da mulher que fala alto, abusada e ameaçadora. Imaginem a mundiça! Aqueles horrores que chamam atenção de todo mundo. A dona nem parece estar rodeada de gente. Ficamos na expectativa de fazer respeitar o direito do idoso. Alguém pensa ir ali e meter-se na arenga. Outro deseja enxugar a munheca no pé do ouvido da mulher. Alguém pede calma e diz que se a coisa esquentar telefona para a polícia. A mulher insiste; o idoso responde com firmeza; a plateia gosta da reação. Cada um ali vai perguntando quem serão aquelas pessoas. Um diz que a mulher deve ser amásia do senhor, pelo dinheiro. Outra acha que devem ser parentes. E assim cada qual vai formulando opinião. Cessado o barulho, um cabra curioso, bem vestido, habitante da área rural, vai lá discretamente, investiga e ─ dando título à crônica de hoje ─ lasca o veredito: É O VEI E A FIA.


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CASA DE ENFORCADO

CASA DE ENFORCADO
(Clerisvaldo B. Chagas, 15 de março de 2011).

       O mundo em notícia vai-se dividindo entre o Japão e a Líbia. Em relação ao país asiático, a parte atingida pelo tsunami, repetida vezes pela mídia, mostra a paisagem como se fosse de um bombardeio aéreo de muitos dias. Esse cenário de horror não fica restrito, porém, a área em que ocorreu o fato. O Japão, afetado como um todo vai sofrendo as consequências pós-onda gigante. Além do amontoado de entulhos, os corpos encontrados nos mais inusitados lugares, representam uma espécie de sina comparativa às hecatombes da Segunda Grande Guerra. Os sobreviventes contemplam em redor como se tivessem sido jogados de repente no inferno. Como fica o psicológico de uma pessoa que passa por um choque radical dessa natureza? Além do trauma central, vem o frio, a falta d’água, a fome e a incerteza. Para completar o quadro dantesco, surge o escapamento radioativo que ameaça não somente o país, mas a vizinhança do arquipélago japonês. Péssima hora para algumas nações falarem a favor de continuados programas nucleares, como Brasil, por exemplo.
       Enquanto isso o povo líbio continua sua luta armada contra um homem que prefere derramar o sangue dos seus irmãos, a deixar o poder. Pelo menos nesse caso da Líbia, o ditador mostra-se pior do que o ex-colega do Egito, também apegado à posição de poderoso. O hábito pode não fazer o monge, mas o indivíduo que dirige um país há trinta anos, acha sim que aquele território lhe pertence. É assim que acontece em menor escala em grande parte dos municípios brasileiros. Mesmo com todas as garantias constitucionais e votado por um período de quatro anos, o reizinho, na sua individualidade, esquece que é apenas o gerente, o empregado do povo, partindo para as estratégias que assegurem a sua permanência no pote de mel. Esses acontecimentos no Japão e no Oriente Médio podem até não ser o início do final dos tempos, mas é o flagrante, o âmago de mudanças históricas que ainda irão se definir. Na Ásia Seca, mesmo que esse novo tsunami das multidões descansem por algum tempo, já foi suficiente para mostrar que essa marcha não retrocederá. Acusamos uma grande lição para os países europeus e os Estados Unidos, que dessa vez aguardam às resoluções da ONU. Ninguém quer se aventurar por conta própria com uma invasão militar em terras líbias. Já? Já aprenderam? Também, depois de Vietnã, Afeganistão e Iraque, só os brocos não aprendem.
       Nesse ínterim, o nosso ex-presidente, não tendo muito que fazer, vai circulando pelo Oriente, ganhando seu “cachezinho”, falando para uma plateia saudosista das suas atuações. Prega a democracia numa região repleta de ditadores. E lá no meio daqueles lobos todos, Lula vai magoando a ferida como pode, aplicando arriscadas lições sobre corda em CASA DE ENFORCADO.


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segunda-feira, 14 de março de 2011

LEMBRAR PELAS CICATRIZES

LEMBRAR PELAS CICATRIZES
(Clerisvaldobchagas, 14 de março de 2011).
       A catástrofe acontecida em território japonês foi lamentável e prevista. As prevenções contra fenômenos naturais não são totalmente seguras, apesar de todos os avanços que existem. Terremotos, maremotos e seus efeitos devastadores, furacões, erupções vulcânicas, fazem parte da renovação normal do planeta. São forças descomunais que levam o homem a procurar entendê-las e tentar, através desse conhecimento científico, conviver com elas. Essas forças não são inimigas e nem amigas, simplesmente elas existem e não podem ser ignoradas. O Japão estar assentado em um dos lugares mais perigosos da Terra. Faz parte do “Círculo do Fogo” ou do “Cinturão do Fogo”, que é uma enorme sucessão de vulcões nessa área do oceano Pacífico. Somente no seu território − arquipélago que congrega 6.852 ilhas – existem entre 80 e 108 vulcões em atividade. As principais ilhas são a de Honshu, Hokkaido, Kyushu e Shikoku que correspondem a 97% do território. 70% do país são florestas e montanhas, deixando a planície costeira para uma grande concentração de pessoas. O mar exerce importantíssimas influências em países arquipélagos. Geralmente são as planícies costeiras as mais procuradas pela população. Grande parcela da sobrevivência vem do oceano, todavia, também as planícies estão mais sujeitas aos ventos arrasadores e indomáveis, bem como aos tsunamis que são ondas fortíssimas provocadas pelos maremotos.
       Estamos solidários com o bravo e laborioso povo japonês, principalmente nas imensas dores que caracterizam familiares mortos ou desaparecidos. Esse território é habitado desde o período paleolítico, fala a língua japonesa e ganhou o título de “Origem do Sol” ou “Terra do Sol Nascente”. O padrão de vida japonês é alto e mostra a maior expectativa de vida do Planeta. Representa a terceira economia, é o quarto maior exportador e o sexto maior importador. Na política, o Japão é monarquia constitucional, onde o imperador é simbólico e cuja força fica com o primeiro-ministro. Com 377.815 km2 de superfície total, o Japão é menor do que o estado de Minas Gerais. Além das florestas e montanhas, pequena parte do território pratica a agricultura e a pecuária. Seus rios são curtos e despejam no mar. Sua população é envelhecida por causa da baixa taxa de natalidade, gerando um problema de falta de mão de obra jovem para impulsionar o país. A terra do Sol Nascente lidera no campo de pesquisa científica e tecnológica, maquinaria, eletrônica, robótica industrial, óptica, química, semicondutores e metalurgia. Apesar de tantos avanços, o Japão também possui uma alta taxa de suicídios.
       É esse país incomum que o mundo aprendeu a admirar e que foi agora vítima de mais um lance da natureza. Logo ele que não para de aplicar lições de Ecologia com projetos bonitos e ousados para uma vida melhor no presente e para o futuro. Como uma tragédia nunca vem sozinha acompanha o tsunami o escapamento de gás contaminado de sua usina nuclear. Outro problemão em potencial que deixa o mundo em suspense. Ainda bem que pelo menos setenta países prontificaram-se a ajudar nossos irmãos asiáticos, inclusive o Brasil. Solidariedade. Como na vida estamos sempre recomeçando, torcemos para que tudo seja recuperado na terra das cerejeiras, embora saibamos que difícil mesmo é LEMBRAR PELAS CICATRIZES.


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quinta-feira, 10 de março de 2011

SE KHADAFHI NÃO CAIR

    SE KHADAFHI NÃO CAIR
(Clerisvaldo B. Chagas, 11 de março de 2011).

Pelo caminho mais perto
Do ditador africano
Um esforço sobre-humano
Vai chegando a céu aberto
Canhões varrendo o deserto
Povoados a ruir
Cova rasa a se abrir
Sob bombas e porfia
No inferno é alegria
Se Khadafhi não cair

Nos levantes populares
Bem longe de água e mangue
Coragem se junta ao sangue
Aviões deixam os hangares
São bombas riscando os ares
Refugiado a partir
Milhões de bala a sair
Da metralhadora guia
No inferno é alegria
Se Khadafhi não cair

Facões vibram vibra o aço
No pescoço peregrino
Da areia brota um hino
Do velho corpo o bagaço
Das entranhas é só mormaço
Fervilhante do porvir
Frases roucas a rugir
Quais leões à luz do dia
No inferno é alegria
Se Khadafhi não cair

Rasgam-se véus e turbantes
Nas investidas ferozes
O cerco espinha os algozes
Nos areais escaldantes
Beduínos triunfantes
Brancos sabres a luzir
Negra fumaça a cobrir
A fúria da infantaria
No inferno é alegria
Se Khadafhi não cair

Sobem vozes nas tribunas
Cruzam balas pelas ruas
As palavras estão nuas
O sangue escorre nas dunas
Golpes golpes tais bordunas
Somente a morte a sorrir
Uma nação a sentir
O peso da tirania
No inferno é alegria
Se Khadhafi não cair

Tremula o verde estandarte
Na força do vento quente
Com o guiso da serpente
Guerreiros marcham com arte
Valentes de parte a parte
Tentando se garantir
O front a reproduzir
Sangue suor covardia
No inferno é alegria
Se Khadafhi não cair

                                             FIM
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ANJOS E DEMÔNIOS


ANJOS E DEMÔNIOS
(Clerisvaldo B. Chagas, 10 de março de 2011).

Vendo o mundo do alto, quatro coisas destacam-se nessa jornada do planeta Terra. Duas boas e duas ruins.
 Uma das coisas boas é a preocupação com a Natureza. Há pouco tempo países ainda relutavam, mas despertaram para a realidade que ameaça a todos nós. Se o problema climático é considerado cíclico, mas a contribuição do homem funciona como potente catalizador. Felizmente os grandes poluidores como a China, deram uma guinada no antigo pensamento retilíneo. Embora ainda não esteja com a velocidade desejada, todos estão fazendo alguma coisa, desde o recolhimento e destino correto do lixo, à geração de energia limpa extraída das mais diferentes fontes.
Uma parte ruim é a que contrasta com a primeira. Movidos pelo desenvolvimento econômico, um movimento armamentista vai-se estabelecendo nos arsenais dos emergentes e no reforço das antigas potências. É o homem caminhando sem largar as duas bandeiras que trouxe das cavernas: a da paz e a da guerra. Construção e destruição. Esse sentimento animalesco ainda mal evoluído prende o ser humano às paixões que originam hecatombes sem vitórias. Quando as bombas atômicas forem usadas, não haverá mais nunca a oportunidade de refazê-las. Dar-se-á o êxodo das almas desse planeta para colônias invisíveis ou para outros planetas melhores ou piores.
Na segunda coisa boa, vem à conscientização amplificada dos blocos econômicos quando a parte social é olhada como saída para a paz. Quando esses blocos, como o MERCOSUL, UE, NAFTA e vários outros espalhados, inclusive na África, apontam o respeito mútuo e o cidadão, individualmente, como prioridade, esses blocos estão desenvolvendo. Isso por que estão saindo do início puramente comercial para uma fase humanitária até de irmandade. Vistos por esse ângulo, os blocos auxiliam a vida.
A segunda coisa ruim são os regimes onde não existe a liberdade individual. Ou manda um só, um grupo pequeno ou um grupão, mas o povo não possui liberdade religiosa, de pensamento, de trabalho, de livre trânsito ou mesmo de planejar a vida. É mero escravo dos dominadores sob os mais diferentes títulos políticos. Aguardamos que a queda desses espíritos de bichos continue em expansão por todos os continentes. O derramamento de sangue vale à pena quando o povo luta contra a opressão. Liberdade não tem preço.
É essa uma visão rápida e geral sobre o nosso planeta. O leigo não percebe, mas estar havendo uma transformação geral, cujo assentamento ainda levará certo tempo, assim como os chamados nas ruas “freios de arrumação”. Não vamos ser pessimistas para não assustar, nem otimistas para não cair na ingenuidade. O homem é ao mesmo tempo nas suas ações florísticas e catastróficas, seu próprio anjo, seu próprio demônio. Ah! ANJOS E DEMÔNIOS.

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terça-feira, 8 de março de 2011

CINZAS DE FOGUEIRA

CINZAS DE FOGUEIRA
(Clerisvaldo B. chagas, 9 de março de 2011)

Quarta-feira de Cinzas. Ainda tem muitos camaradas curtindo a terça de Carnaval. Blocos inteiros ultrapassaram o limite da meia-noite, viram o dia raiar e tentam um prolongamento infinito das suas emoções. Como é bom extravasar! Deus não condena a alegria. O condenável é apenas aquilo que não se coaduna com os princípios cristãos, a violência, o álcool em excesso e muitas outras práticas nocivas que muitas vezes terminam em tragédia. Brincar o Carnaval com sabedoria é salutar e recomendável, quando inúmeros problemas imaginários evaporam no sentimento alegre, na música, na camaradagem, na euforia que não cabe dentro da alma. Entretanto, poucos são os conscientes que sabiamente fazem como manda a regra do bem viver. Nesse novo dia vamos contemplando o que restou do reinado de Momo pelas calçadas e sarjetas numa filmagem real da vida humana. Aqui, acolá, um fantasiado passa procurando um bar aberto para os últimos tragos de uma farra que se extingue. Um instrumento mudo, uma ressonância nos ouvidos dos que persistiram nos quatro dias numa toada de ilusões.
Tem início, para os católicos, o período da Quaresma que são os quarenta dias antes da Páscoa, a partir de hoje e sem contar os domingos. Essa fase é praticada há bastante tempo pela Igreja e faz parte do calendário cristão ocidental. Chamamos a este dia, especialmente quarta-feira de cinzas, lembrando o simbolismo do Médio Oriente, quando as pessoas colocavam cinzas à cabeça demonstrando arrependimento perante o Senhor. Os católicos celebram missas, ocasião em que os sacerdotes marcam as testas dos fiéis com cinzas e realizam belas práticas sobre esse significado. Representam às cinzas, reflexão sobre a vida, mudança, conversão, a nossa fragilidade perante a morte. Geralmente o cristão só retira a marca deixada na testa, no início da noite. Ainda pela Igreja, na quarta-feira de Cinzas não se come carne, assim como na Sexta-Feira Santa. O jejum e abstinência são guardados pelas pessoas que gostam de manter a tradição. O próprio Cristo falou sobre a força do jejum, hoje comprovado pela Ciência. Infelizmente esse dia, outrora tão sagrado para todos, torna-se propício aos indiferentes a tudo.
De um jeito ou de outro, o chamado feriadão foi bom para o funcionalismo e ruim para os comerciantes, segundo eles. Azar! A ambição pelo dinheiro nunca satisfaz ao avarento. Vamos voltar ao ritmo normal pelo menos até à Semana Santa. Afinal, ninguém é de ferro. É difícil parar para refletir. Mesmo assim, vamos vivendo como se fôssemos eternos nessa condição terrena, mas quando o nosso mundo desaba, notamos que não passamos de CINZAS DE FOGUEIRA.

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CARNAVAL DA SEGUNDA

CARNAVAL DA SEGUNDA
(Clerisvaldo B. Chagas, 8 de março de 2011).

          O tempo em Alagoas continua nublado com nuvens cinza. Às vezes nem sequer as folhas movem-se pela falta da mais leve brisa. O calor sufoca dentro de casa, nas ruas, nos automóveis. De vez em quando, pequena e cansada chuva tenta amenizar o mormaço asfixiante. O máximo que consegue é aumentar essa quentura do mês de março. Novamente a capital está ocada como talo de abóbora. Fica fácil enfrentar o trânsito reduzido de avenidas quase vazias. Os bares do centro estão fechados. Os donos, ou estão nas farras do litoral norte/sul ou fugiram da chateação dos poucos bêbedos que ficaram. Pegar umas latinhas só nos postos de gasolina; almoçar, somente em raríssimos restaurantes ou nas barracas do litoral sul. É a segunda-feira de Carnaval pontilhando a terra. Para quem não brinca, visitar o santuário da Virgem dos Pobres é boa opção. É logo ali perto do Extra, numa entrada estreita e ladeirosa que termina na metade da barreira. Está havendo retiro. Os inúmeros agradecimentos por graças alcançadas, estão pregados ao longo da parede que leva ao santuário.
          Na realidade, nesses dias de Carnaval, poucas são as opções de visitas sociais. Em compensação, para quem aprecia a Natureza litorânea, além das lagunas, pode encontrar a majestade dos cenários deslumbrantes. Passeio de jangada na piscina natural da Pajuçara; uma geladinha na praia do Francês; pescaria na barra da lagoa ou boa caminhada pela ilha de Santa Rita deixam o indivíduo na mais completa ordem. Não vamos cair na tolice de sair de casa meio-dia por que o Sol não alisa nem mesmo a sertanejos como nós. Perguntamos a moça que vende coco verde onde está à freguesia, cadê o povo. Ela nos olha com olhar brejeiro, sorriso maroto e responde: “Oxente! O povo, meu senhor, tá nos Carnavá”. Indagamos se não estamos no “Carnavá”. A moça já vai ficando invocada e responde estirando o beiço: “Virche! Não senhor. Os Carnavá é pracolá, ói!” E vai ajudando o beiço com a mão, como quem está varrendo com os dedos.
          A noite chega. O Sol parece ter ficado embutido na escuridão, pois o calor continua sufocante. As pessoas correm ao único supermercado aberto, como prevenção para amanhã. Um funcionário ameaça fechar a porta de ferro. Saem pedidos aperreados dos clientes retardatários. Lá fora, àquela chuvinha mortiça também vai anunciando que o mercado fechou. Os pneus vão fazendo ruídos estranhos pelo asfalto borrifado. Não se ouve uma só música de Carnaval nem dentro nem fora do estabelecimento. A segunda-feira vai-se despedindo meio tristonha, cansada, abatida pelo sufoco climático do dia. E se for para dizer, vou copiar a frase do flanelinha guarda carro:”Tá na hora de pegar o beco”. Adeus CARNAVAL DA SEGUNDA!

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segunda-feira, 7 de março de 2011

PAI É PEIA

PAI É PEIA
(Clerisvaldo B. Chagas, 7 de março de 2011).

Queixam-se Maceió e Santana do Ipanema sobre o Carnaval que não consegue melhorar. Deu pena lê a entrevista de uma autoridade da capital falando sobre o assunto. Alegava à pessoa que os foliões haviam esvaziado Maceió em busca de outras localidades. Apontava Paripueira, Barra de São Miguel, Barra de Santo Antonio e Marechal Deodoro como destinos dos brincantes no litoral. Dizia ainda a citada autoridade, ser o Carnaval sinal de praia, além de exaltar as belezas naturais das urbes litorâneas acima. Continuava à pessoa, dizendo que não adiantaria um planejamento carnavalesco para um lugar onde faltariam pessoas para a realização do planejado. Resumindo: reconhecia a falência do Carnaval em Maceió, que ficara restrito a um desfile de escolas de samba. “Ê pai! Pai é peia, mas quando pai tiver na peia, acode pai!”. Esses dizeres sertanejos antigos refletem bem a situação de hoje. É semelhante àquele que diz que na casa que falta pão, todos reclamam e ninguém tem razão. Se formos olhar por certo ângulo, a autoridade está certa no modo de vê o reinado de Momo dessa maneira no “Paraíso das Águas”.
Em Santana do Ipanema, capital do sertão de Alagoas, a coisa é semelhante, amigo velho. Digo Santana do Ipanema, por que não queremos falar de outras cidades interioranas, pois cada uma tem a sua realidade. Por mais esforço que o município faça, os foliões formam seus blocos e na hora “H” partem para cidades ribeirinhas, principalmente Pão de Açúcar e Piranhas. Esta última tem se tornado o principal destino dos que pulam o Carnaval no Médio e Alto Sertão. Os prefeitos Cícero Almeida e Renilde Bulhões não estão errados e não são culpados da falência dos carnavais maceioense e santanense. Com os tempos modernos, uma sucessão de prefeitos em ambas as cidades, foi abandonando a tradição, como se apoiá-la fosse uma cafonice que não ficava bem na era da televisão, do computador, do celular. Abnegados que defendiam sempre o folclore foram-se tornando vozes isoladas e as tradições ficando enfraquecidas até chegar aos nossos dias. Como está havendo um novo olhar sobre o Carnaval no Brasil através do mesmo instrumento que o fez hibernar, voltam cidades como Maceió e Santana do Ipanema a querer requebros dos bonecos mortos por elas mesmas.
Percorremos as ruas e praias da capital nesse domingo (6) e só vimos o vazio. Deve ter acontecido a mesma coisa em Santana do Ipanema. Ao longo do litoral maceioense, poucas pessoas às sombras de barracas de praia. Em Santana, os antigos e bons carnavais dividiam-se em três partes. Durante as manhãs, blocos e mais blocos pelas ruas, inclusive com bandos de caretas. Às quatro da tarde, uma orquestra tocava no centro do comércio para quem quisesse brincar, além do corso, realizado à mesma hora. Na parte da noite, a sociedade divertia-se nos dois clubes rivais, Tênis e Sede dos Artistas. Sempre foi ali o melhor Carnaval do interior. Como os dois carnavais foram exterminados, recomeçar do zero não é nada fácil. Vai ser preciso muita competência para pesquisar, planejar, plantar e fazer brotar o novo. Enquanto isso vamos também pegando roteiros espetaculares que desembocam em lugares paradisíacos dentro desse estado de tantas e tantas praias e coqueirais. PAI É PEIA!.

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