sexta-feira, 30 de julho de 2010

LAGO DE MEL

LAGO DE MEL
(Clerisvaldo B. Chagas. 30 de julho de 2010)
Quando saiu a notícia e foto de um caminhão queimando em pleno centro de Olivença, Alagoas, veio à lembrança uma fogueira diferente. Aconteceu lá mesmo na cidade de Olivença em 1926. Após o ataque à vila de Olho d’Água das Flores, Lampião ainda passou pelo povoado Pedrão (pé) onde sequestrou o empresário Calixto Anastácio em busca de resgate. Dali o bandoleiro partiu para o outro povoado chamado Capim que corresponde a Olivença de hoje. Fazendo algumas estripulias, Virgulino Ferreira da Silva, por isso ou por aquilo, mandou queimar um vapor de descaroçar algodão. Morreu queimado nesse incêndio, um próprio cabra do bando, cujo nome não foi repassado para a posteridade. Nessas investidas de Lampião, uma numerosa volante seguia seus passos. Essa força policial era comandada pelo tenente Elpídio e subcomandada pelo sargento Joaquim Estanislau de Brito. Quando a fumaça ganhava os céus do Capim, foi vista pela tropa do governo que não estava tão longe do povoado. Imediatamente o oficial mandou a tropa fazer alto e bivacar. O sargento, homem disposto, doido por um combate, ficou surpreso perante a ordem do comando. Indagado, o tenente disse que a tropa estava com fome e precisava parar para comer. Roendo-se de raiva pela covardia do superior, o sargento pensou em revoltar-se, mas sentiu que a disciplina estava acima de tudo. Dando tempo suficiente para que os perseguidos fossem embora, só então o tenente resolveu prosseguir rumo à fumaça. Quando a força entrou no povoado, a única coisa que fez foi mandar sepultar o cangaceiro defunto. Essas lembranças, também ficaram registradas através do futuro escritor Oscar Silva.
Vamos divagando sobre a nossa missão aqui na terra. Cada profissão escolhida exige do seu praticante um sério compromisso seja ela qual for. O sujeito não pode ser juiz, promotor policial... se tem medo de bandido. Um médico não pode exercer bem a profissão se tem horror a sangue. Professor não pode ser eficiente se não é dado às pesquisas e, assim por diante. No caso da numerosa volante que perseguia cangaceiros, faltou, no mínimo, uma espiadela no povoado para avaliar uma condição de combate. Nada foi feito, como vimos. Sentar, comer e beber é muito mais cômodo para os que fogem à luta. Bem assim, confiamos a princípio em nossos dirigentes como o sargento Brito confiava na patente do seu superior. Ficou insatisfeito, decepcionado como comentou mais tarde entre seus amigos. Nós reunimos forças e elegemos os nossos representantes que nos parecem pessoas honestas e dispostas a alavancar o progresso que teima em não chegar. Acontece que o desengano com eles não é apenas um caso esporádico, uma exceção na regra geral. É uma carreira de contas decepcionantes de rosários sem alívio de Pai Nosso. Disse-me certo dono de transporte alternativo que é muito difícil se manejar o mel sem lamber os dedos. Concordamos plenamente com as sensatas palavras que o homem ouviu da sua mãe. Acontece que os que manejam com o doce tão cobiçado, não se conformam apenas em lamber os dedos. Como o chefe da volante do Capim, eles esquecem completamente o dever assumido anteriormente. Querem o favo todo, brigam pela colmeia e sem mais controle nenhum, vão-se afundando cada vez mais no imenso, doce e ardiloso LAGO DE MEL.

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quarta-feira, 28 de julho de 2010

GOVERNADOR BANDIDO

GOVERNADOR BANDIDO
(Clerisvaldo B. Chagas. 29.7.2010)
Quem viveu o mundo típico e atribulado dos rodeios, certamente conheceu o touro que fez história nas arenas do Brasil. Nunca um personagem com nome negativo foi tão admirado e querido quanto o boi “Bandido”, estrela de Barretos. Bandido é considerado o maior touro de rodeio de todos os tempos. Nenhum peão teve o direito de chegar aos oito segundos no seu lombo, tempo oficial marco do esporte. O boi, nome genérico do ruminante, tinha um pulo de lado, marca registrada sua, que nunca peão valente aguentou. A novela “América” tornou conhecido nacional e internacionalmente o animal invencível que participou de mais de duzentas competições. No decorrer da novela, o público passou a admirar e gostar de Bandido, que metia medo até em quem estava à frente da telinha. Infelizmente o invicto campeão não resistiu ao câncer e, aos 15 anos encerrou sua carreira em quatro de setembro de 2008. O touro Bandido foi enterrado no Parque de Peão de Barretos, cidade centro de rodeios, a 423 km de São Paulo, capital. Nunca se viu tantas homenagens a um bovídeo. Bandido ganhou memorial no parque com fotos e informações. Na época, iria ganhar ainda estátua em ferro e fibras. O touro da novela deixou setenta filhos, quatro clones e dois mil sêmens congelados. Quanta honra!
O senhor Paulo Emílio é dono dos quatro clones de Bandido. No domingo (25) estreou na arena um dos clones do grande campeão. O nome da fera é “Matador”. Pois bem, o primeiro desafio de Matador foi contra o peão Lucimar Lauriano, 21, que resistiu somente 2,5 segundos. Palmas para o animal que estreia a carreira vencendo. Todos apontam Matador como se fosse verdadeiramente o pai em suas características. O início do boi no perigoso esporte permite novas expectativas para empresários do ramo, peões e estudiosos. Aguardemos, quem sabe, outro excelente ator de novelas.
Os clamores da população alagoana são dirigidos contra a violência das ruas, a desorganização da Saúde, o baixo salário da Educação e o calote dos precatórios. Melo não resolveu, Lessa não resolveu, Vilela não resolveu. Pela pesquisa publicada, são esses, entre os outros candidatos, com maior possibilidade de vitória ao governo estadual. Conhecemos os três. Como serão resolvidos os quatro problemas acima após a eleição? Você concorda que naturalmente está difícil para o alagoano? Dizem que há um seguimento espírita na Índia que acredita na reencarnação de animais em pessoas. Se for assim, rezemos para que haja pelo menos um encosto do touro Bandido no corpo do vencedor. Por que, para resolver os quatro problemas citados, principalmente o dos precatórios, é preciso ter honestidade, fibra, coragem, determinação e valentia do touro de Barretos. Nem mocinho de cinema, nem fala mansa e nem abuso eterno deram jeito nessas coisas. E se nada disso resolveu e nem vai resolver, a única solução é apelar para o touro do outro mundo e moldar um GOVERNADOR “BANDIDO”.




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terça-feira, 27 de julho de 2010

VOTA EM QUEM?

VOTA EM QUEM?
(Clerisvaldo B. Chagas. 28.7.2010)
O mês de julho no Sertão de Alagoas é marcado pela festa de Senhora Sant’Ana. Padroeira do município de Santana do Ipanema, a avó materna de Jesus comanda uma ação tradicional desde o último quartel do século XVIII. Instituída pela Igreja, a data oficial dos festejos é a mesma em todos os lugares do mundo. O inconveniente do evento religioso é que o mês da novena é justamente o mais chuvoso em nossa região. Divide a última quinzena de julho com os quinze primeiros dias de agosto em matéria de frieza. Como este ano, o Divino quase sempre gratifica o dia da procissão com estio e Sol fraco.
O dia 26 de julho ─ após a barulhenta Festa da Juventude e a benfazeja novena dedicada a Ana ─ amanheceu calmo com um Sol preguiçoso e ruas desertas. Algumas delas sem um pé de pessoa, como se diz por aqui. Mas, a partir do meio-dia, parece que a cidade inteira despertou para o apogeu dos festejos.
A procissão da Excelsa padroeira Senhora Sant’Ana, representa um belíssimo espetáculo de fé que arrebanha milhares de pessoas. Charola ornamentada com esmero, a procissão percorre ruas e avenidas, mostrando mais de dois quilômetros de gente e de colorido sobre buracos, entulhos, asfalto e calçamentos. Os cânticos habituais penetram pelos ouvidos santanenses amolecendo corações. Como no mundo profano, um lugar pertíssimo de Ana é muito disputado. Era uma ambição simples que envolvia algumas pessoas de prestígio social. Ultimamente esse lugar, perto da Excelsa, virou mistura de xadrez e de luta greco-romana entre políticos.
As pessoas comuns não tem mais direito de andarem ao lado da santa e muito menos de conduzirem o seu andor. Surgem sempre políticos no “chega prá lá” aos indivíduos do povo. A batalha surda que envolve braços e ombros para afastar os demais inclui agora os quadris de nádegas avantajadas ou murchas. Antes, o povo ria com as presepadas dos políticos locais na procissão. Mas atualmente os políticos de fora botaram (de forma acima) os da terra para correr. Só se via gente se cutucando, rindo e apontando o ridículo com o queixo. Ao chegarem a casa, vários fiéis se divertiram à beça com a resenha dos candidatos nessa época de eleição. Sendo assim, o ato religioso, além de enxadristas e lutadores, ofereceu uma atração a mais: à testa do cortejo um particular humorismo digno da novela “O bem amado”.
Mesmo durante atos religiosos significativos, o aperreio pelo voto é imenso. Se pudesse, o candidato retiraria a imagem da charola e ficaria em seu lugar acenando para a multidão: “milhares e milhares de votos, só meu”. Quem estava perto do padre me contou que a disputa por metro quadrado foi renhida. Em um momento mais difícil de passagem de trecho, um político, diante da marcada concorrência, perdeu o foco. Teve que subir em uns entulhos e voltou-se azoado para a imagem de Senhora Sant’Ana. Pegou no manto da santa ─ pensando tratar-se de uma beata de vestido azul ─ e cochichou no seu ouvido: “VOTA EM QUEM?”


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segunda-feira, 26 de julho de 2010

PASSA EM ARAPIRACA

PASSA EM ARAPIRACA
(Clerisvaldo B. Chagas. 27.7.2010)
A criatividade do brasileiro não tem limites. Além do tal jeitinho que se tornou coisa nossa, outros campos também são visitados pela imaginação. As piadas reinantes em reuniões de homens são fenomenais. É preciso pensamento inteligente para bolar o fato curto e condensado da tirada divertida e maledicente. Em uma roda de amigos as gargalhadas dominam sobre a ansiedade da anedota. Todos sabem e contam piadas de sexo, papagaio, macaco, português e de tantos outros assuntos. Mas existem aqueles que possuem o dom natural para contar os fatos. Entre os que praticam esse tipo de humorismo de salão, podemos destacar dois estilos. Um deles é do bom piadista, faz a alegria da roda e gargalha com os demais da própria piada. O outro é do que emite a anedota provocando risadas homéricas, mas ele permanece quieto, calado, sério como padre velho. Desse último tipo, conheci o “Duro”, sujeito que morava à Rua Nova e trabalhava na marcenaria do conhecidíssimo Antonio Dantas. Ficou desaparecido durante dezenas de anos. Vim encontrá-lo há pouco no Bairro São José sem perceber que aquele marceneiro chamado Sebastião, era o “Duro” da minha adolescência. A ele encomendei várias peças de madeira. Depois Sebastião veio morar perto da minha casa. Em conversa informal descobri quem era o homem. Ele não se lembrava de mim. Em nossa juventude “Duro” me avistava de longe e ia logo dizendo: “Tenho uma novinha correndo sangue”. E libertava a piada que me fazia quase morrer de rir. Ele apenas fumava e permanecia cara-de-pau. Agora na terceira idade bebia muito, o álcool tirou-lhe a vida.
Uma dessas anedotas que andam soltas e modificadas, sem autores, sem registros, levadas de boca a boca, é a do cidadão que almejava a todo custo chegar ao destino. Ele está à margem da rodovia aguardando transporte. Ao avistar uma carreta, dá com a mão. O carreteiro, que já vem fumarando de raiva, quer descontá-la em alguém. Mete o pezão no freio vendo ali a sua vítima e pergunta o que é que há. O pretenso carona indaga: “Vai para Arapiraca?” E o motorista, botando para fora tudo que sente, responde: “Eu vou para a p... que pariu!” O ingênuo passageiro não desiste: “Mas passa em Arapiraca...?”
Certa ocasião conversei bastante com um candidato a prefeito de uma cidade sertaneja. O mesmo que me contou a piada acima. Queria por que queria ser prefeito. Indaguei se tinha ideal? Não. Perguntei se tinha projetos para a cidade. Também não. Indaguei ainda se estava preocupado com sua gente, com seu povo, com os problemas do município. Respondeu-me logo que não havia pensado em nada disso. Queria ser prefeito, expressão dele, “porque a prefeitura jorra dinheiro e facilidades que me permitirão alcançar o cargo estadual de..." E citou o cargo. Conseguiu eleger-se e chegar depois ao lugar que pretendia.
Sem ideal, sem planejamento, sem coração, “o importante não é ser chamado de filho de uma p...” disse-me ele muitos e muitos anos depois daquelas perguntas que relembrava e que concluiu dizendo: "Como o carona do carreteiro, o mérito é saber unicamente se a carreta PASSA EM ARAPIRACA".


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LAMPIÃO

LAMPIÃO
(Clerisvaldo B. Chagas. 26.7.2010)
(Para PRIMO VEI)

Aproveitando a presença de Sílvio Bulhões (filho de Corisco e Dadá) em nossa terra, lembramos que depois de amanhã tem aniversário da morte de Virgulino Ferreira da Silva. Setenta e dois anos se passaram desde que Santana do Ipanema, Alagoas, foi o epicentro da notícia bomba que tomou conta do planeta. Primeiro, por que a cidade sediava o 2º Batalhão da Polícia Militar, de combate ao cangaceirismo; centro irradiador de forças volantes em busca do “Rei Vesgo dos Sertões”. Segundo, por que era o lugar mais adiantado dos próximos ao massacre de Angicos. Mesmo após a apresentação das cabeças de Lampião, Maria Bonita e mais nove sequazes, nos degraus da prefeitura de Piranhas, as cabeças também ficaram expostas em Santana. A igrejinha/monumento, marco de passagem de século, construído pelo padre Capitulino, não apresentou somente Nossa Senhora da Assunção. As onze cabeças dos cangaceiros trucidados foram colocadas nos batentes da capela, para a satisfação de vitória contra o receio ilimitado da época. O quartel ficava por trás da igrejinha, no mesmo casarão onde hoje funciona uma escola. A imagem da santa, vinda de Portugal, parecia dizer àquelas cabeças sem corpos: “Eu bem que falei que esse negócio de cangaço não tinha futuro!” E a multidão se aglomerava por ali em busca da certeza dos boatos que percorriam a caatinga, os povoados, as vilas... As cidades. Para um tempo que ainda engatinhava em comunicações, foi fantástico. Não demorou nada o descarrego no meio do mundo velho de meu Deus. Fotógrafos, acadêmicos, políticos e também coiteiros do bando, invadiram a cidade rapidamente juntos ao alvoroço que tomou conta da urbe.
O comandante Lucena, cujo prestígio rotineiro ascendia na “Rainha do Sertão”, teve essa confiança elevada ao quadrado diante da sociedade perplexa. Estávamos vivendo ainda o período de interventores. A posse do novo interventor municipal, Pedro Gaia, sem destaque, morna, sem brilho, passou à euforia coletiva após um telegrama histórico vindo da ribeirinha Piranhas, local mais perto do tiroteio. Uma quantidade de fotos que ninguém sabe precisar foi estampada nos jornais de quase todos os países do globo. Soldados foram escalados para a missão sinistra e nauseante de mostrar e identificar as cabeças ao público. Todas, chegadas em latas de querosene com formol.
Estava presente no dia em que o desfile macabro chegou a Santana, o futuro escritor Oscar Silva, componente de elite do batalhão. Graças a Silva, foi registrado o essencial daquelas cenas extraordinárias ocorridas a 220 km de Maceió. Tempos depois, o comandante dos homens que atacaram Angicos, território sergipano, publicou o livro: “Como dei cabo de Lampião”. Lucena foi promovido e chegou a ser prefeito da cidade, seguindo uma carreira política de sucesso. Candidatou-se a deputado e ainda conseguiu exercer o cargo de prefeito em Maceió. A igrejinha/monumento ainda existe, mas parece não ser percebida em sua importância histórica para o mundo estudantil. Assim, as lembranças longínquas continuam povoando as massas cinzentas dos pesquisadores. Apesar de milhões de letras escritas sobre o cangaço, muito ainda se tem a dizer sobre LAMPIÃO.

• Primo Vei (João Francisco das Chagas Neto ou João Neto de “Dirce” ou João do Mato)



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quinta-feira, 22 de julho de 2010

MELANCOLIA

MELANCOLIA
(Clerisvaldo B. Chagas. 23.7.2010)
Literatura

O mês de julho é matador. Mês de julho é quem maltrata. Mês de julho não perdoa poetas, amantes, apaixonados. O mês mete medo. Ele traz a frieza insistente dos dias nevoentos. E eu vou espiando o lá fora pelas vidraças translúcidas de minha vida. O céu leitoso espelha a preguiça juliana. Pardais pelos muros, telhados, rede elétrica, lembram os dorsos negros das andorinhas ─ aves de caudas bífidas da torre da igreja, do poço dos Homens, ornamentos do destino. Meu hálito quente embaça o vidro companheiro. Decido-me pelo suicídio lento e deixo flutuar a voz do cantor:

(...) “Tarde fria,
Sinto frio na alma.
Só você, que não vem,
Me acalma...”

Os olhos se umedecem. Suspiro prolongado. Continua a música:

(...) “Vem o vento
E a tarde é fria,
Estou só
E minha alma vazia.”

Quero um cigarro. Um peste de um cigarro! Onde coloquei o maço? Ah, sim, não fumo. Não tem importância. Talvez um café pequeno resolva. Tanto o cigarro mata quanto o intérprete:

“Se o amor
É uma pérola clara
Se tem
O ardor de um rubi...”

(...) “Se o amor
Tem fulgor de brilhantes
Fiel como ouro de lei...”

Bate no velho peito uma tristeza profunda. O cafezinho nada resolve. Assalta-me novamente a vontade de ser fumante. O chefe dos pardais parece zombar de mim. Ficam vermelhos os olhos, a boca resseca, despertam-se as paixões. Rói o cérebro um dilúvio nelsiano:

“Outra noite que passei em claro
Só Deus sabe por quê
Outra noite de insônia e de cansaço
Outro pedaço da vida sem você...”

(...) ”Entre as paredes frias do meu quarto
Que outrora o seu amor vinha aquecer
A insônia conversa a noite toda
E não me deixa lembrar de te esquecer...”

Mês de julho é quem maltrata. Mês de julho é matador...
ME-LAN-CO-LI-A…

 Trechos de letras musicais apresentados: “Tarde Fria” e “A Pérola e o Rubi” (Cauby Peixoto); “Noite de Insônia” (Nelson Gonçalves).
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quarta-feira, 21 de julho de 2010

DESENROLANDO O CARRETEL

DESENROLANDO O CARRETEL
(Clerisvaldo B. Chagas. 22.7.2010)
Atrasaram muito o Brasil, duas coisas de peso: a dívida externa de juros absurdos e a corrupção que tomou conta do País. Durante décadas, o dinheiro de toda a arrecadação brasileira, dava somente para pagar juros externos e acumular riquezas aos corruptos. Há dez anos, mais ou menos, afirmávamos que a seriedade do Brasil levaria uns cinquenta para ser atingida em toda plenitude. De uns oito anos para frente, teve início à mudança com a coragem de atacar à corrupção, primordialmente a política. Dez anos desde que falamos já se passaram. Faltam quarenta. O que ninguém tinha visto ainda começou a acontecer: presos, desmascarados, desmoralizados os colarinhos brancos. Juízes, deputados, governadores, prefeitos, vereadores, vão sendo apresentados às multidões sedentas de justiça. A corrupção continua, mas não tão fácil como antes. Essa água de latrina, fétida, podre, imunda, há de passar. Quando um deputado estadual ganha oficialmente 12 mil e leva 250, é porque a água continua estagnada. Pelas cédulas úmidas do suor do povo, compreendem-se as brigas, assassinatos e a agitação indecorosa pelo Poder. Juízes safados, atolados até o pescoço na sujeira, ainda existem no País. Vão enlameando esposa, filhos e netos que se acostumam e fazem vista grossa ao ilícito que entra no lar pela porta da frente. “Ah, esses já receberam suas recompensas”. Mas os tempos passarão. Pais, avôs e bisavôs comprometidos não perdem por esperar.
Em se tratando direto de Economia, foi com imenso prazer que recebemos notícias da compra de aviões brasileiros pela Inglaterra. Não foi a África nem a América Central ─ que encomendaram centenas de ônibus do Brasil ─ foi mesmo a poderosa Inglaterra, através da companhia aérea britânica FLYBE. São 35 jatos E75, capacidade para 88 passageiros. Além disso, a companhia alinhavou mais 105 aeronaves. A transação envolve US$ bilhões. Para se fazer uma transação desse porte com uma nação emergente, é preciso bastante confiança. Vejamos como é importante a seriedade de um povo: antes comprávamos aviões aos ricos, hoje os desenvolvidos são nossos clientes. Esse é apenas um exemplo dos que diziam a inverdade nos anos de chumbo: “Ninguém segura esse Brasil”. Ao que os humoristas perseguidos retrucavam: “Como segurar se ele está todo melado de b...?” Mesmo assim, tem candidato à presidência que está demonstrando suas fraquezas, quando ataca instituições e países amigos, vizinhos, irmãos na mesma luta pelo fim da pobreza. Será que teremos um retrocesso em tudo que foi conquistado à duras penas?
Como sempre andamos pelos rastros alheios, chegou à hora de imprimirmos as nossas próprias pegadas. É assim que apesar dos maus brasileiros vamos impondo nosso ritmo ao mundo. E quem sabe se esses quarenta anos assinalados podem chegar logo após as Olimpíadas? Lembramos do humor da televisão: “Desenrola, carrité!” Com esse governo, sem puxa-saquismo nenhum, apesar de tantos problemas existentes, incredulidade apenas para os que não querem ver que estamos DESENROLANDO O CARRETEL.




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terça-feira, 20 de julho de 2010

FÃ ARRETADO

FÃ ARRETADO
(Clerisvaldo B. Chagas. 21.7.2010)
Como já foi dito nesse espaço, um fã da cantora Clemilda sou eu. Somente Marinês teve mais fama antes, e virou mito com o título “Marinês e Sua Gente”. Já no ocaso da cantora paraibana (talvez) surge uma voz peculiar, “amundiçada”, agressiva e alegre no mundo nordestino do forró. Clemilda Ferreira da Silva nasceu em Palmeira dos Índios, agreste de Alagoas. Veio de família humilde e nunca pensou em vida artística até o seu importante despertar. Aos 20 anos, a futura cantora foi para o Rio de Janeiro, onde trabalhou de garçonete. Nas horas de lazer frequentava programa de rádio. É interessante que em muitos casos, as pessoas nem suspeitam em que irão se transformar quando sonham com outras coisas tão distantes. Pode ser que a sina esteja perto e camuflada, aguardando somente a hora de agir. Clemilda começou a interessar-se por música nessas ocasiões. Certa feita ela cantou pela 1ª vez na rádio Mayrink Veiga (1965) no programa “Crepúsculo Sertanejo”. Foi ali que a mulher conheceu o sanfoneiro Gerson Filho ─ também alagoano ─ e com ele casaria. Gerson já era famoso e, Clemilda passou a acompanhá-lo como uma espécie de coadjuvante. Gerson Filho fazia muitos shows em Sergipe e assim Clemilda com ele acelerou sua carreira.
A partir de 1967, a cantora começou a gravar seu próprio disco. Em 1985, estourou nas paradas com “Prenda o Tadeu”:

“Seu delegado/ prenda o Tadeu
Ele pegou minha irmã/ e..."

Atuando no rádio e televisão, ganhou o seu 1º disco de ouro em 1985. O 2º disco de ouro veio em 1987. Com a morte do companheiro, em 1994, a cantora deixou de fazer shows. Talvez o saudosismo tenha-me feito lembrar as músicas de Clemilda. A cantora sempre atuou no estado sergipano, mas nunca se esqueceu de cantar Alagoas, terra sempre presente em suas composições. (O leitor bem sabe que não são poucos os que negam as origens). Eu vibrava quando ela estremecia tudo com voz poderosa falando em nosso estado:

(...) Alagoas deu Penedo
Sergipe deu Propriá...

Ou então quando ela manda um recado para Alagoas que estará chegando:

(...) mande avisar a Penedo
Arapiraca e Traipu...

Clemilda sempre foi uma cantora preocupada com os dois estados. Promovia a ambos no seu canto de patativa. Em uma excursão a pé a foz do rio Ipanema, eu cantava pela serra das Porteiras e o eco respondia: “Cuidado com o Tadeuuuuu! Eu, eu, eu, eu...” Sua música estava em pleno auge. (“Ipanema, um rio macho”, livro inédito). Agora desligado do mundo do forró, eu quis saber se a cantora ainda era viva. Descobri essas informações e ainda que a Clemilda apresenta o programa “Forró no Asfalto”, na TV Aperipê de Aracaju.
Um abraço enorme, então, Clemilda, desse FÃ ARRETADO!




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segunda-feira, 19 de julho de 2010

VENDO NAVIOS

VENDO NAVIOS
(Clerisvaldo B. Chagas. 20.7.2010)
Para melhor divulgar, reproduzir, informar, voltamos ao importantíssimo assunto sobre Economia em Alagoas. Para felicidade geral, o estado está inserido no mapa do mundo da indústria naval. Comparando em termos de planeta, essa indústria brasileira já é a 6ª do mundo, ganhando dos Estados Unidos e atrás da China, Coréia, Japão, EU e Índia. Temos 25 estaleiros no país e agora serão instalados mais cinco, distribuídos nos estados da Bahia Ceará, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Alagoas. A instalação de um estaleiro significa tantas coisas excelentes para o lugar e região que é quase impossível enumerá-las. O Nordeste que vive correndo atrás de Sudeste, Sul e Centro-Oeste, no desenvolvimento, tem apenas funcionando o estaleiro de SUAPE, em Pernambuco. Agora conquista a felicidade de ganhar mais um na Bahia, outro no Ceará e o terceiro em Alagoas. A Petrobrás mesmo já contratou 195 embarcações. A Venezuela encomendou dez petroleiros aos estaleiros Ilha S.A. (EISA). Parte desse pedido, possivelmente deverá ser feito em Alagoas.
Para que o prezado internauta tenha noção da grandeza desse empreendimento, ele já é considerado o maior do estado. Os números falam alto. O estaleiro EISA será instalado em Coruripe, litoral sul, ocupando uma área de dois milhões m2. O Grupo Synergy estará investindo R$ 1,5 bilhão na construção da nova indústria. Imaginem agora uma perspectiva de geração de 4.500 empregos diretos, somente na 1ª fase do empreendimento. Se para cada emprego direto, tivermos mais cinco indiretos, faça as contas o leitor, do número de beneficiados: nada mais de 22.500 pessoas. Nessas informações de jornal de São Paulo, ainda falam que pesou muito a posição geográfica do nosso estado em relação ao atendimento para o oeste da África. Impressionam ainda outros números. O estaleiro precisará de 10 mil refeições, dia. E, em se tratando de mês, 1.000 conjuntos de uniformes; 500 pares de botas; 1.500 pares de luvas e ainda haverá um processamento de 13 mil toneladas de aço.
Com as fábricas trazidas para Alagoas, no atual governo, mais a indústria naval, não há como se negar um ciclo novo da Economia nesse estado. Antes, apenas quase somente a força egoísta da cana-de-açúcar. Nada sobra para o interior longínquo, nem mesmo (como diz o próprio governador) uma fábrica de picolé. E como o canal do sertão está sendo trabalhado, agricultura e pecuária serão beneficiadas. Mas será que o Sertão só pode produzir feijão, carneiros e cabras? Queremos dizer, somente a agropecuária nos interessa? Enquanto as fábricas povoam Maceió, Marechal Deodoro, Murici, Arapiraca, a específica indústria naval encosta-se a Coruripe. Vão acontecendo os milagres de mares e lagunas.
No Sertão, onde cada um somente cuida da sua turma, estudantes, trabalhadores e outros brasileiros marginalizados sobem nos grandes lajeiros. E, em relação a Coruripe, entre palmas, facheiros e mandacarus, lá de cima ficam a VER NAVIOS.


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domingo, 18 de julho de 2010

A TAMPA DA GARRAFA

A TAMPA DA GARRAFA
(Clerisvaldo B. Chagas. 19.7.2010)
Para “Tonho Cupim", Fábio Campos, Magda Wanderley, Valter Filho, Malta, Primo Véi, Valões, Capiá e Remi Bastos.
Como segunda escola do estado da futura Rede Cenecista, em Santana do Ipanema funcionou o Ginásio Santana. Pelo menos por duas décadas, o Estabelecimento teve como mestres pessoas de outras áreas de trabalho. Esses profissionais atuavam como colaboradores sociais para a juventude estudiosa e nada recebiam em troca. A remuneração era apenas o reconhecimento costumeiro de final de ano. Assim, desfilaram pelo casarão: bancários, médicos, padres, juízes, contabilistas, comerciantes... Sempre cheios de boa vontade. Participei de uma turma, cujo professor de Ciências, era o médico Jório Wanderley. O doutor sempre foi educado, sereno e respeitoso com seus alunos. A sua limpidez didática influenciou a minha futura carreira no Magistério, bem como as sínteses explicativas do mestre Alberto Nepomuceno Agra. Apesar de tudo, os alunos não conseguiam ficar à vontade durante as aulas do médico Jório. Todos temiam uma gentil e irônica observação ou um educadíssimo “retire-se, por obséquio”. As suas explicações eram de uma clareza formidável e, as aulas, quarenta minutos de suspense. Certa feita, doutor Jório Wanderley desenhou uma garrafa no quadro-negro e indagou a todos para que servia a tampa da garrafa. Numa classe composta de cinquenta e nove alunos, caiu uma bomba de silêncio, ocasião em que vinte segundos transformaram-se em vinte horas. Ninguém, absolutamente ninguém, teve a coragem e a ousadia de responder. Finalmente desenganado, o doutor mesmo esclareceu: “Serve para tampar a garrafa”. O alívio foi geral, todos estavam certos no pensamento, mesmo assim continuou o silêncio. Final de ano, apenas cinco aprovados. Entre eles, eu, que apreciava a matéria.
O mundo pode ter mudado com seu progresso e tecnologias. O Homem, entretanto, continua com os seus medos, inseguranças, receios de passos perdidos. Os caminhos dos sonhos recebem névoas que às vezes não se desfazem nunca. O concreto dos grandes edifícios, as filas intermináveis de automóveis, as ruas desertas das madrugadas, fabricam momentos de pavor quando se pensa na vida. Move-se a humanidade num porvir enigmático, amargo e doce, colorido ou cinza como o cimento das edificações. O ignorante quer saber, o sábio duvida, o fraco dissipa-se. Cérebros de robôs, pernas de robôs, multidões de robôs caminham, se cruzam, se amam... Agitam-se. E dos contos de Breno Accioly, dos romances de Clerisvaldo B. Chagas, personagens viram realidade da ficção que já foi real. Todos, ficção e realidade, buscando respostas, querendo saber o que há por trás da neblina. Da vida. Um dia viramos Pilatos interrogando alhures, indecisos, tontos, vacilantes: “Verdade! O que é a verdade?” Mas não queremos ouvir a resposta, tal o próprio que não quis ouvi-la. E vamos seguindo mudos diante da complexidade do mundo e do risco de viver. Sabemos tudo e nada sabemos. Um alto-falante invisível interroga. Curvamos a cerviz. Calamos ─ como os alunos do doutor Jório Wanderley ─ com receio de não sabermos para que serve a TAMPA DA GARRAFA.

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quinta-feira, 15 de julho de 2010

O VÉU DE VERÔNICA

O VÉU DE VERÔNICA
(Clerisvaldo B. Chagas. 16.7.2010)
Interessante em pesquisas são os significados de nomes próprios de pessoas. São inúmeras as interpretações de nomes, principalmente indígenas, quase sempre associados a animais, à flora ou aos elementos da Natureza. Muitos deles não possuem significados, até porque não foram dirigidos com essa finalidade. Outros são interpretados como fortuna, feliz, bons ventos, demônio, homem forte, a que traz as chuvas e assim por diante. Sociedades existem que escolhem criteriosamente os nomes dos filhos, baseadas nessas interpretações. Elas acham importante uma associação daquela pessoa, chamada e lembrada toda hora, com algo que seja de bom augúrio, que traga sorte, alegria ao portador. Acontece, porém, que não são muitas as que sabem interpretar suas próprias denominações. Às vezes o significado pode ser, como exemplo, homem gentil. Mas o dono comporta-se como o animal cavalo. Mulher virtuosa, mas a dona é completamente alheia às virtudes. Deus trovão, quando o portador é mais pacato do que um cordeiro. São contrastes que divertem como campeão de peso pesado dirigindo fusca. Gente que não faz jus ao nome que ostenta. Verônica, que significa “a imagem verdadeira”, tanto pode agir como diz o nome ou ser fraca, sem ação, invejosa, que, ao invés de ser verdadeira, é um desastre com verniz.
A Bíblia não conta, mas a tradição segue o texto considerado apócrifo, pela Igreja, quando fala sobre Verônica. “Atos de Pilatos”, capítulo 7. Na via dolorosa do Cristo, homens e mulheres acompanhavam os três prisioneiros. Foi, então, que uma mulher teria conseguido driblar os guardas e enxugado o rosto de Jesus com um véu (lenço ou toalha). Ao saber que Maria (também acompanhava o filho), era a mãe de Jesus, Verônica (...) “dirigiu-lhe a palavra, abraçou-a e mostrou o lenço que levava: ‘Olhe!’ E ali estava: o rosto de Jesus desenhado no pano. É notável que a Igreja, apesar de considerar o texto apócrifo, usa a parte sobre Verônica em sua Via-Sacra. Para alguns estudiosos, esse pano foi conservado em Roma até 1.600 e permanece na Itália. Várias são as versões sobre a existência da personagem e quem a teria sido. Inclusive, falam até que Verônica teria tido um problema de saúde, antes, e fora curada por Jesus. Na França, Verônica é considerada santa e protetora das lavadeiras.
O material acima é polêmica para centenas de anos. O que menos importa é se Verônica existiu ou não. A riqueza está na simbologia, nos ensinamentos de princípios e virtudes como gratidão, solidariedade, fé, coragem, testemunho, piedade e respeito pela dor alheia. Encontramos constantemente frequentadores (as) de igrejas e centros espíritas que, apesar de ensinamentos sérios e detalhistas, não aprendem para si. Apenas para aconselhar os outros. Sobre eles, diz a sabedoria popular: “Muita farinha é sinal de carne pouca”. Quantas decepções as pessoas tem de nós! Quantas decepções temos dos seres humanos! Dizem que a famosa toalha fazia milagres quando apresentada a quem precisava. Não falta quem a deseje possuir, menos para fazer o bem ao próximo, mas para aumentar o poder de obstruir a ascensão dos outros, com o carguinho passageiro que possui. Esquece que o mundo é redondo. Denigre o verdadeiro sentido do VÉU DE VERÔNICA.



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quarta-feira, 14 de julho de 2010

VIM PARA FICAR

VIM PARA FICAR
(Clerisvaldo B. Chagas. 15.7.2010)
Debruço-me mais uma vez sobre o livro “Vim Para Ficar”, do saudoso escritor santanense Floro de Araújo Melo. Nascido em 1914, Floro é autor de obras literárias em assuntos e variedades. Considero “Vim Para Ficar” ─ livro de memórias ─ como o mais interessante de Melo. Publicado em 1981, no Rio de Janeiro, “Vim Para Ficar” descreve os antecedentes de Floro, nascimento, infância no Sertão, como se fosse primeira parte. Sua ida a Maceió e sua convivência na casa de um tio, o dono da “Casa Lavor”, surgem como segunda etapa. A terceira seria a sua partida para o Rio de Janeiro, onde concluiu sua vida e suas obras. A segunda etapa, quando Melo fala da sua viagem à capital, é fonte de pesquisa sobre as dificuldades da época onde não havia asfalto e o trajeto Palmeira – Maceió era feito em trem de ferro. Sua convivência em Maceió causa pena e revolta no leitor. Isso quando a criança é entregue pelos pais ao tio do garoto. Um carrasco. O sofrimento da criança longe de casa e cujo tio o faz de “escravo”, muito emociona. Quantas e quantas crianças e adolescentes viveram o mesmo drama de Floro, em Maceió!
O que me faz meditar sobre o trabalho, é a “Festa da Juventude” em Santana do Ipanema, cuja divulgação ganhou pelo menos o Nordeste brasileiro. Pela dimensão que alcançou a “Festa da Juventude”, antes, um dos itens de comemoração à padroeira, foi desmembrada e apresenta vida própria. Mesmo assim os dois eventos são vizinhos de mês e dias.
E como no passado, a grande maioria dos jovens da nossa terra não tem opções de trabalho dentro do Município. Não tem porque nunca houve uma política planejada para o futuro. Entra prefeito, sai prefeito e continua a política do básico feijão com arroz: calçamento e coleta de lixo. Inúmeras famílias mudando-se para Maceió por falta de médicos especializados, na cidade. Os jovens que tem condições, mesmo apertadas, procuram outros centros para o trabalho, a semelhança do escritor Floro de Araújo Melo. Perdemos várias oportunidades de sermos uma Campina Grande, Petrolina, Caruaru. Contentamo-nos com as migalhas do centro regional mais próximo, Arapiraca. Os jovens da terra só tem duas opções: ou passam num concurso público estadual, federal (se for municipal, morrem no salário mínimo) ou vão para trás dos balcões vender remédio e pão.
Enquanto isso, diante de uma Câmara sem norte e uma sociedade organizada contemplativa, os dirigentes tornam-se DONOS absolutos dos interesses particulares. A "Festa da Juventude" vai crescendo por si, conquistando gente de todos os quadrantes. A cidade, com seu planejamento fraco (“peba”), entulha as ruas de barracos e o que mais se ouve nesse caos urbano, são xingamentos, palavrões dos motoristas que circulam pelo centro. Desordem, incompetência e má vontade andam juntas. Ao encerrar a maravilhosa "Festa da Juventude", vem novo processo de decantação. Ficam no fundo da vasilha as mesmas mazelas de outrora. Uma terra em que ninguém quer fazer o seu futuro; em que seus filhos jovens e agora também os idosos tem que migrar e sofrer como fez há cerca de oitenta anos o autor de “VIM PARA FICAR”.


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terça-feira, 13 de julho de 2010

JUCA MULATO

JUCA MULATO
(Clerisvaldo B. Chagas. 14.7.2010)
Completando 93 anos de nascimento do livro-poema “Juca Mulato”. Para felicidade da Literatura Brasileira, nasceu Menotti Del Picchia em São Paulo em 20 de março de 1892. Menotti tornou-se poeta, jornalista, romancista, cronista, pintor e ensaísta. Foi bacharel em Direito e militou no estado de nascimento, chegando até a Academia Brasileira de Letras. Dos inúmeros trabalhos publicados por esse autor, destacamos o livro “Juca Mulato”, lido por nós na adolescência, sendo um dos que mais nos impressionaram, assim como “Noite”, de Érico Veríssimo. Quando criança, por alguma coisa que tenha feito, Menotti foi trancado no quarto pela sua mãe. Pediu a ela um tradicional lanche à base de banana e a mãe negou. Sem poder sair do quarto, o menino pegou um pedaço de papel e um lápis e escreveu mais ou menos assim: “Eita que mãe desumana/nega até uma banana. O bilhete foi colocado por debaixo da porta e logo chegou o seu lanche. Diz Menotti que foi aí que ele descobriu um dos benefícios da poesia. Em 1917, o autor, com 25 anos, lança o poema “Juca Mulato”, nascido em Itapira (SP) que vai chamar atenção mais do que todas as suas obras futuras. Juca Mulato foi o estopim para a Semana da Arte Moderna realizada em 1922, da qual Menotti Del Picchia foi um dos articuladores. Quem gosta de Literatura sabe como tudo mudou nas letras e nas artes no Brasil, a partir desse acontecimento.
O longo poema “Juca Mulato” ─ sertanista e romântico ─ tem como tema o amor que o Juca sente pela filha da patroa, pelo seu olhar. Isso faz com que o autor envolva os elementos da Natureza nos pensamentos e na fala do Juca. Estrelas, Sol, Lua, plantas, animais, tudo é cúmplice do drama arrebatador do personagem. Nunca vimos tanta arte num poema só. Em uma das partes, a que mais impressiona, é quando Juca, desesperado, recorre ao feiticeiro Roque. O feiticeiro, então, diz ao Juca tudo o que sabe fazer, mas não pode dar um jeito no problema do consulente. Entretanto, o aconselha. Vejamos apenas um pequeno trecho da consulta:

“(...) ─ Juca Mulato! Esquece o olhar inatingível!
Não há cura ai de ti, para o amor impossível.
Arranco a lepra do corpo, estirpo da alma o tédio,
Só para o mal do amor nunca encontrei remédio...
Como queres possuir o límpido olhar dela?
Tu és qual um sapo a querer uma estrela...

A peçonha da cobra eu curo... Quem souber
Cure o veneno que há no olhar de uma mulher!
Vencendo o teu amor, tu vences teu tormento.
Isso conseguirás só pelo esquecimento.
Esquecer um amor dói tanto que parece
Que a gente vai matando um filho que estremece
Ouvindo com terror no peito, este estribilho:
‘Não sabes, cruel, que matas o teu filho?’ “

Como é bom degustar o poema vivo JUCA MULATO!


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segunda-feira, 12 de julho de 2010

PETRÓLEO

PETRÓLEO
(Clerisvaldo B. Chagas. 13.7.2010)
O gerente vai mostrando tantas e tantas peças de plástico úteis para o lar. Impressiona a variedade e texturas do material. Na verdade, há uma infinidade de coisas feitas à base de petróleo. E vamos transportando os pensamentos há tempos outros, quando esses objetos eram raridades. As mulheres sertanejas andavam quilômetros com o pote de barro à cabeça. Uma luta desesperadora pela sobrevivência. Potes de barro, sim senhor, para transporte e depósito do líquido insubstituível. Lá no canto da cozinha, tampa de pano ou de madeira, a água esfriava e adquiria sabor. Assim era a jarra, do mesmo material, e que pegava vários potes d’água. Ainda havia o purrão, maior do que a jarra, fazendo parte do trio de depósito. Outro vasilhame utilizado, era a lata de querosene, uma das primeiras que surgiram no Sertão. Depois veio a lata de tinta, de margarina, que substituíam aos poucos a de querosene. Lata d’água na cabeça, até motivo de samba nos morros cariocas. Vasilhame de ferro e estanho. O complemento da lata e do pote, era a rodilha de trapo. Lá se vão às mulheres sertanejas, brancas, mulatas, caboclas, subindo as veredas, ganhando os caminhos. Pescoços rígidos, saias curtas, molejos sensuais nas nádegas volumosas. Havia também outros objetos de copa e cozinha, antes do tal plástico, feitos de louça, ágate, estanho e cobre.
O petróleo foi ganhando espaço através das refinarias. Apesar da poluição de origem petrolífera e de novas fontes energéticas, ainda são construídas essas refinarias em todos os lugares. Do petróleo temos a gasolina, óleo, graxa, piche, naftalina, querosene, gás, asfalto, coque, alcatrão, parafina, breu e ceras. O plástico foi produzido pelo inglês Alexandre Parker, em 1862. Os objetos de plástico são leves, eficazes e baratos. Logos atingiram a população de baixa renda. São vendidos tanto em lojas sofisticadas quanto no meio das feiras livres de qualquer interior. Até a tradicional cuia sertaneja, feita da cabaça, virou lata de queijo-do-reino, depois objeto de material plástico.
O Brasil é um país, cujo progresso acontece sobre pneus. Foi essa a opção do transporte interestadual básico. As ferrovias ficaram em segundo plano ou excluídas das prioridades urgentes do País. Agora estão voltando devido aos problemas crônicos de escoamento da produção para os portos, notadamente no Meio-Norte. Causou tristeza quando uma autoridade falou há alguns dias sobre o caos nas rodovias brasileiras. O homem afirmou que somente daqui a cinco anos, essas estradas estariam mais ou menos. Onde está o petróleo do asfalto? Desperdício e prejuízo marcham juntos enquanto não são solucionados os gargalos das péssimas estradas. Não dá para ser competitivo no comércio exterior, assim. E no País, como baratear os produtos comestíveis básicos se os problemas são as rodovias? Quanto mais falamos dos males desse coringa chamado petróleo, mais dele precisamos. Somos da geração plástico, petróleo, gasolina... Achamos que esse pretinho malcheiroso vindo do ventre da terra, não se vai esgotar cedo como está previsto. E se nós somos mesmo dessa geração, por muitos anos ainda, vamos continuar cheirando PETRÓLEO.


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domingo, 11 de julho de 2010

MONOTONIA

MONOTONIA
(Clerisvaldo B. Chagas. 12.7.2010)
O domingo amanheceu preguiçoso em Maceió. De repente cai uma chuva com aspecto de inverno que vai embora assim como chegou. Surge um sol fraco, tímido, mortiço. Os automóveis passam devagar, vão descendo, subindo, serpenteando a Via – Expressa em dolência domingueira. Com as praias poluídas, a capital alagoana vai virando interior sem opções de lazer. Comércio fechado, ruas completamente desertas. As tardes metem medo naquelas vias sem um guarda, um policial, sem ninguém. Os que pretendem gastar dinheiro e vê outros semelhantes vão aos shoppings, ao barzinho costumeiro, à caminhada na orla. E as cabeças nos apartamentos vão riscando o céu que não se decide. Sobe o cheiro de churrasco que se expande pelo ar. Cruzando a rua aquele homem tão forte, meu Deus, puxando a coleira de um cachorrito tipo totó. Que contraste risível! Lembro imediatamente de Severino Pinto, o rei dos repentistas nordestinos. O paraibano cantava com um parceiro no antigo estado da Guanabara a convite do governador. O companheiro atacava o estado do adversário e defendia a Guanabara. Em uma das estrofes, após arrasar com a Paraíba de Pinto, encerra o verso dizendo:

“E de bom na Paraíba
Só a Rádio Tabajara”

O grande mestre Severino Pinto pegou a deixa e acabou com o parceiro numa sextilha criativa e de rimas difíceis, primeiro time das mais belas:

“O que eu vi na Guanabara
Foi negro morando em morro
Carro atropelando gente
Enchendo o pronto socorro
Ladrão batendo carteira
Mulher puxando cachorro”

Depois do Globo Rural, mais nada. Qual o interesse que o brasileiro tem mais nas corridas bestas da Fórmula 1? Massa, até logo. Barrichello, na insistência perene de bobo da corte. Está certo ele. Se não tem censo de ridículo, continue motivo de piadas. Resta o último jogo da Copa encerrar o dia. Mas não é a mesma coisa. Esperemos, então, pela noite. Quem tem muita paciência pode praticá-la ainda mais com o Faustão. E o Fantástico vem em seguida, para repetir por duas horas tudo que já foi dito no decorrer da semana, sobre o caso Bruno. O restante fica para o comentário da África do Sul. Vai continuar ligado? Sabe de uma coisa, irmão! É colocar o carro na estrada, almoçar um bagre no Pilar, engatar um retorno a Maceió e estender-se numa rede cearense. Dormir meu amigo, imitar os inventores índios desse formidável balanço. O domingo não foi feito para descansar mesmo! O pior é que até no descanso ronda o tédio. Mesmo assim ainda está faltando alguma coisa. Aí eu me lembro de Santana do Ipanema, das músicas do “Juca Alfaiate”, do “Barbosinha”, do violão de “Sebastião Sapateiro”. Tenho certeza de que eles acabariam com esse domingo de MONOTONIA.




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quinta-feira, 8 de julho de 2010

O MONSTRO DO FLAMENGO

O MONSTRO DO FLAMENGO
(Clerisvaldo B. Chagas. 9.7.2010)
No Esporte, a Copa do Mundo representa o máximo de aspiração para o Brasil. O brasileiro pode perder em todas as outras modalidades esportivas, contanto que traga o título de Campeão do Mundo no futebol. Portanto, dois fortíssimos golpes deixaram perplexo o nosso País. Perder para a Holanda foi um deles. O jogo que fez calar duzentos milhões de fanáticos, pareceu prenúncio de fim do globo terrestre. E ainda durante a ressaca avassaladora do resultado, surge a notícia terrível do caso Bruno. Não sabemos se o mistério é para explicações de filósofos ou de psiquiatras. Estamos convivendo com a morte em cada esquina, em cada rua, em cada beco. Eliminar o semelhante virou moda nesse país de Cabral. Até já faz parte da rotina esse alto índice de violência urbana. O que chama atenção, contudo, é o sadismo, a monstruosidade de alguns deles. Ouve-se falar no crime da mala. Mas, constantemente saem notícias de novos crimes semelhantes. A vítima, em pedaços, é colocada na mala e jogada em rios e córregos. Outro crime chocante foi aquele em que a vítima foi esquartejada e posta no freezer. Lembramos de um caso ocorrido na Bahia, em que um cangaceiro matou um tenente. Após, o bandido abriu a barriga do morto, retirou as vísceras e com elas engordurou o fuzil. Os nazistas arrancavam a pele das pessoas ainda vivas e, com parte do corpo, faziam sabão. Outras insanidades também eram praticadas.
O caso do goleiro Bruno, não é menor do que esses citados. O que faz um homem no auge da sua carreira, praticar desatinos assim. Goleiro do Flamengo... Faltou equilíbrio ao Bruno? Mandar matar faz parte do padrão da violência atual. A vida humana não estar valendo mesmo um tostão furado. Mas, esquartejar para alimentar os cães, é de uma loucura sem limites. Entra para a galeria dos grandes monstros da literatura, o goleiro Bruno. O caso ganha as páginas dos jornais como um desvio das frustrações da Copa. Agora é a mesma torcida da seleção querendo todos os culpados presos e o rigor da lei como gol de placa. Chama também atenção, a frieza do goleiro, como se nada, absolutamente nada, tivesse acontecendo. Nem que ele tivesse completamente alheio ao que estava se passando com a amante, haveria de mostrar algum sentimento de humanidade. Nada. Frio, calculista e sinistro. Não se trata de julgar ou pré-julgar uma pessoa. O crime está desvendado. É pena que investigações rápidas em crime outros não tenham a mesma velocidade. Mesmo assim, valeu o esforço da polícia que não deixa de possuir em seus quadros pessoas competentes. Coisas assim fazem a gente acreditar na polícia.
Vamos ver como se sairá o Judiciário. É preciso acabar de uma vez por todas com a tradição nefasta de que só existe justiça para os pequenos. Quanto ao time de Bruno, é atingido sem querer por comportamentos de alguns integrantes como Wagner Love, Adriano e agora, o outro. São fatos que não deixam de respingar no time rubro-negro. Resta acompanhar as últimas notícias a respeito do Bruno. Com a queda na própria ratoeira, trocará a fama, a frieza e a carreira de segundo melhor goleiro do Brasil, por uma sala com grades e o título inédito de MONSTRO DO FLAMENGO.




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quarta-feira, 7 de julho de 2010

INICIANDO A LEITURA

INICIANDO A LEITURA
(Clerisvaldo B. Chagas. 8.7.2010)
Minhas primeiras leituras, após os livros escolares, aperfeiçoaram o método. Três tipos de fontes davam a base para aqueles adolescentes que se interes-savam pelo mundo mágico das letras. Sem classificação pela ordem, mas em pé de igualdade pela importância do incentivo para altos graus, tínhamos: livretos infantis, folhetos de cordel e gibis. Os livretos assemelham-se aos de hoje, apresentados nas escolinhas e nas bibliotecas infantis e juvenis. Era importante fazer a leitura com algum tipo de ilustração. Somente depois é que o adolescente começa a ler sem figuras, imaginando seus próprios personagens. Entre os livretos (falo da espessura) estavam os clássicos e imortais. O que incentivava bastante era a leitura de folhetos de cordel, por causa das rimas. Aí a minha tendência poética falava mais alto e eu lia sem parar um após outro. A esses livretos chamávamos romances. Os títulos eram sem fim: João Grilo, Cancão de Fogo, A Peleja de Serrador e Carneiro, O Cachorro dos Mortos, A Índia Neci, A Chegada de Lampião no Céu, O Fantasma do Deserto, Antonio Silvino, A Chegada de Lampião no Inferno, Zé Bico Doce, A Peleja de Severino Pinto e Severino Milanês e mais e mais e muito mais. Os gibis, por sua vez, causavam frisson entre os quase rapazes. Íamos comprá-los, novinhos, cheirosos, lá na Rua Nilo Peçanha. Eles vinham de Maceió na “sopa” que fazia a linha. Mas para não pararmos a leitura, colecionávamos os gibis e saíamos fazendo trocas. Eu possuía muitos gibis e João Soares Neto (João Neto de Zé Urbano) também. João Neto, atualmente é advogado e milita em Santana do Ipanema. Mas, o João Neto de Seu Coaraci, que morava à Rua São Pedro, tinha gibis como nunca vi tantos. Saía com aquele monte no braço, fazendo trocas. João Neto tornou-se médico e atuava em Garanhuns, aonde veio a falecer. Pois bem, esses três tipos de leitura, nos deixavam desasnados e nos empurravam para leituras mais complexas e sem ilustrações.
Nesse momento (de TV, Internet e tantas outras tecnologias) é como se não tivesse melhorado nada. Não foi só uma ou duas vezes em que perguntei em várias salas de aulas de até sessenta alunos, quem tinha lido pelo menos um livro completo no presente ano ou no ano passado. Em cerca de dez, doze turmas, nunca encontrei mais de dois alunos. Sempre alertei para a evasão escolar e o desinteresse. Encontrei, porém, muitas pedagogas de cabo duro. Estamos vendo as confirmações da realidade escolar divulgadas. Isso acaba com o professor honesto que se mata por um salário vil e é chamado atenção quando diz que o aluno não quer nada.
Mas, o que queremos mesmo é mostrar que em uma época tão difícil, essas três coisas simples incentivaram os jovens aos cursos superiores. Felizmente nem tudo está perdido, tem ainda estudantes dedicados, cheios de vontade e que não gosta de perder aula. Mesmo assim, perguntem agora quantos leram pelo menos um livro no primeiro semestre deste ano. O que fazer sem gibi e folheto de cordel, eu não sei, mas é bom que se invente algo atrativo para ir INICIANDO A LEITURA.



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terça-feira, 6 de julho de 2010

CRÔNICA FEITA

CRÔNICA FEITA
(Clerisvaldo B. Chagas. 7.7.2010)
O amigo gosta de mudanças? Quero dizer, apartamento novo, entregue na obra. Você nem imagina o requifife que aparece! O bicho é como automóvel que se recebe pelado. Se há reclamação, tem sempre um sujeito maneiroso que procura justificar os erros; mistura de ambulante e rábula. É preciso fazer os armários, trocar a pia, rejuntar o esquecido. Aí você se lembra de ligar o gás encanado, solicitar serviço de telefonia, da Internet. As providências crescem, ficam do tamanho do serrote do Cruzeiro, um monte da minha terra. Ninguém aparece. De repente o sufoco danado. Chega tudo de uma vez. Ali, dois marceneiros batem, furam, serram. A zoada constante da furadeira estressa até os santos. Outra furadeira responde à primeira; é o homem trocando a pia. Bate, fura, serra; serra, fura, bate. Olhe, o sujeito do rejunte chegou. Puxa os móveis, inicia o trabalho. Toca a campainha. São dois gesseiros. Vão tapar os buracos que não servem para nada. O celular chama. No outro lado da linha, perguntam se o rapaz da TELEMAR chegou. Os gesseiros vem dizer que só faltam acabamento e pintura. Chamam à porta. É um fuleiro qualquer entregando propaganda de TV. Seis homens de uma vez mexendo no apartamento. Você nada pode fazer. Um precisa um pouco de cimento, outro quer uma broca de parede. O primeiro faz coisa errada, dá duro para consertar. Ao se virar para a conferência, o homem do rejunte vem dizer que terminou o serviço faz um cumprimento e vai embora. Ainda bem. Agora ficam somente cinco. Os gesseiros também vão embora. Você calibra a paciência para três. As furadeiras, entretanto, valem por mil. A parada para o almoço é um ufa bem suspirado, uma sentada providencial, um choro que não vem. Fica apenas o chato telefone pegando carga: bip, bip, bip... Ah, Maceió!
Em mais alguns dias seguidos, recomeçam as ladainhas. O indivíduo da ALGÁS demora a um chamado. Novos telefonemas, apertos do patrão e, o camarada no instante chega desconfiado. Lá vem novo lamento. O eletricista quebra o suporte da luminária e quando você põe a mão à cabeça, chega um curioso querendo espiar tudo. Mas é cada uma! E o telefone, meu amigo! Telefone só com o “habite-se” da prefeitura. Enquanto o “habite-se” não sai, nem telefone nem Internet. Olhe a novidade, gente! Maior velocidade na Internet, o dobro da que tem agora. Mas como, criatura!? (Diria o Carlos Sampaio do SINTEAL). Cadê a autorização da prefeitura? Paciência, Seu Mané. Aqui é diferente. Às vezes querem fazer Roma num dia só. Ô diabo! Que maçada o marceneiro dá. Atende mil pessoas de uma vez só e reduz as horas que trabalha no seu serviço. Não senhor, puxar os cabelos não adianta, Zé. Não sei. Pois bem, quem não tiver paciência não conte os passos da preguiça. E como já foi dito e exemplificado, faça a experiência. Foi diante de tanto ruge-ruge que o amigo aconselhou e riu: você não é cronista? Faça uma crônica. Onde se vai arranjar tempo, não sei, mas está aí a CRÔNICA FEITA.




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O BAR DA CÍCERA

O BAR DA CÍCERA
(Clerisvaldo B. Chagas. 6.7.2010)

Em nossas brincadeiras em Santana do Ipanema, tínhamos os nossos lugares prediletos. O bar do Erasmo, no início da Rua São Pedro, era um deles. Os frequentadores dividiam-se entre profissionais autônimos e funcionários do governo. Cerveja sempre gelada, mas o tira-gosto vinha das casas de alguns desses frequentadores que moravam próximos. O Erasmo colocava bastante pimenta e poucos provavam dos pratos que chegavam. Lembro de pessoas interessantes que buscavam aquele bar como os professores Marques (Filosofia), Eli (Matemática) e José Maria (História). Entretanto, o nosso refúgio predileto era o bar do Biu, à Rua Delmiro Gouveia. Depois o Benedito Pacífico ampliou o estabelecimento, mudando de categoria com o sugestivo título: “Biu’s Bar e Restaurante”. Ali frequentamos por mais de vinte anos porque o Biu atendia com gentileza, era um local aconchegante e tranquilo. Nas paredes havia quadros com paisagens de países estrangeiros, principalmente os de quatro estações. Ao fundo, o belíssimo quadro panorâmico natural do rio Ipanema. Durante as cheias, águas por cima das pedras do poço das Mulheres. Na estiagem, o bucólico cenário típico nordestino. Areia, pedras e mato. Um jumento pastando, uma vaca amarrada, um menino caçando passarinho. Nada pagava o cenário tristonho do rio. Foi dali do Biu’s Bar e Restaurante que partiu a primeira excursão a pé até a foz do Ipanema. Com a falta do Benedito, o seu filho Jairo assumiu definitivamente o negócio que hoje funciona como bar e salão de festa, muito solicitado, por sinal.
Certo dia, porém, eu e o Zé Maria, resolvemos girar por outros lugares de Santana e fomos parar na Rua São Pedro. O ponto escolhido foi a bodega da Cícera que também funcionava como bar. Pois bem, quando chegamos por ali, ouvimos logo a música “Feiticeira” que estava fazendo sucesso. Pedimos cerveja, puxamos conversa vendo a satisfação da dona com a nossa presença. O amigo Zé Maria foi logo dizendo que a música era muito bonita. Com isso, a Cícera encheu-se de satisfação e esqueceu o CD que rodou até ninguém não mais aguentar. Pagamos a conta e fomos embora com a cabeça cheia de cerveja e os ouvidos zoando com a “Feiticeira”. Em outros lugares comentamos que o bar da Cícera só tocava aquela música, por isso não iríamos mais ali. Ora, ninguém pode dizer daquela bebida não beberei. Uns quinze ou vinte depois retornamos, sem sentir, à mesma bodega. A Cícera aproveitou à hora, colocou os cotovelos no balcão, segurou o queixo e indagou contundente: ”Zé Maria, me diga uma coisa. É verdade que você e Clerisvaldo andaram dizendo por aí que meu bar só tocava “Feiticeira”? Confesso que na hora não encontrei saída. Mas o professor Zé Maria Amorim, improvisou bonito igual ao Nêgo Zé Lima. Disse bem sério diante do rosto interrogador: “É verdade, Cícera, a gente comentou mesmo, mas se você não colocar agora a música “Feiticeira”, a gente vai embora nesse momento e nunca mais vem aqui”. A mulher abriu-se num sorriso largo, e haja cerveja com tira-gosto de “Feiticeira” até umas horas. Depois dessa, cabra velho, não me lembro de ter posto os pés novamente no BAR DA CÍCERA.

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segunda-feira, 5 de julho de 2010

GORILA DO PARQUE

GORILA DO PARQUE
(Clerisvaldo B. Chagas. 5.7.2010)

Os bons tempos das festas de Senhora Santa Ana já se foram. Durante o novenário do mês de julho, a multidão tomava conta da Praça Emília Maia à Rua Tertuliano Nepomuceno; da Rua Nilo Peçanha à Ponte Padre Bulhões. Primeiro vieram às inúmeras barracas com as mais diferentes atividades, principalmente, as relativas a jogos e bazares; tudo, da Igreja Matriz ao Mercado de Carne. As bancas de comidas, à base de galinha de capoeira, puxavam mais para a Rua Tertuliano Nepomuceno. Ali havia forró em vários lugares. Não podiam faltar nem a onda nem o curre por trás do “sobrado do meio da rua”. Na hora aprazada, ajeitava-se o balão enorme por trás das casas comerciais Arquimedes Autopeças e A Triunfante, de Manoel Constantino. Descia a banda de música do maestro Miguel Bulhões para abrilhantar o novenário. Após as solenidades religiosas, íamos ver o barco de fogo correr bonito no arame suspenso, defronte a igreja. Tempos à frente, veio à segunda fase. A fase do parque de diversões que empurrou a onda e o curre para cidades menores e povoados. O parque trouxe novidades como barcos, roda-gigante, pescaria a seco, tiro ao alvo, bingo e serviços musicais. Rapazes e moças gostavam de mandar músicas através do parque. Ao rapaz da blusa azul ou à moça do vestido vermelho, a música seguia com a frase: “Você já sabe”. E entrava Waldik Soriano, Silvinho, Miltinho e outros famosos da época, machucando os apaixonados.
Certo dia chegou à festa de Senhora Santa Ana, algo diferente. Armada na cabeça da Praça Senador Enéas Araújo, uma barraca bem feita com desenhos grandes nas tábuas, anunciava a mulher barbada e o homem que vira gorila. A barraca lotava na força da propaganda. Lá dentro, com os truques através de espelhos, mágicas e Física, a gostosona virava mulher barbada e, o homem forte transformava-se em gorila. Enquanto homem, o sujeito era manso; ao virar gorila, ficava brabo e queria engolir o mundo. Era um pandemônio desgraçado!
As eleições vem aí. Só se houve salvadores do Brasil. Como disco enganchado: “Porque a Saúde, porque a Educação... Porque a Saúde, porque a Educação... Porque a Saúde, porque a Educação... Eles se pronunciam. Todos são velhos conhecidos da gente. Depois os libertadores encerram o assunto, nem Saúde nem Educação. Sequer uma palavrinha com o homem comum, o homem do povo. Eles desaparecem do cenário como por encanto. Tornam-se escravocratas, reizinhos arrogantes e sujeitos imortais. Adoram serem endeusados pelos espíritos fracos dos puxas, dos borras, dos capachos... dos gansos. Pouquíssimos, raros mesmo, são os que não se deixam contaminar com a metamorfose. De maneira geral elas transformam-se em mulheres barbadas. E os masculinos (que transportam há muito o espírito de porco), com sadismo até, viram gorilas, muito parecidos com o GORILA DO PARQUE.

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sexta-feira, 2 de julho de 2010

OSÉAS E O BRASIL

OSÉAS E O BRASIL
(Clerisvaldo B. Chagas. 2.7.2010)
Passa do meio-dia na saída Maceió - Sertão. Vans estacionadas aguardam passageiros retardatários entre nojentas barracas enfileiradas e a imundície perpétua da localidade. Usuários reclamam do ponto perigoso de espera. Transitam à vontade os vendedores de drogas da favela às margens do asfalto. Passa o farrapo de uma garota de onze anos apontada pelos experientes que dizem ser viciada. Outras garotas mais velhas surgem perambulando entre as vans e as calçadas pretas. Vão chegando rapazes magros trazendo os sinais do vício; alguns com aspectos deploráveis, vítimas dos malditos efeitos do craque. A princípio, diz um proprietário de besta, que eles – os drogados – não mexem com seus passageiros. Não se vê ninguém, acintosamente, armado. Será esse o segredo da favela? Movimento normal de pedestres e automóveis. Na entrada do beco aparece nova personagem. Rapaz entre dezoito e vinte e um anos, simpático, bigodinho, bem trajado no comum. É muito calmo o rapaz. Escora-se à grade baixa da igreja evangélica e logo vai recebendo o apurado, dos seus súditos. Abrindo a mão, fechando e embolsando sem contar, sequer olha para os lados. Parece antigo na rotina de arrecadação. Ninguém pronuncia palavras. Somente gestos automáticos no dar e receber. Veículos encostam sem desligar o motor. Os zumbis de fora vão estirando a mão para os candidatos de dentro. Os carros deslizam calmamente na partida. A cem metros dali, fica a sede da Polícia Rodoviária Federal.
Em Santana do Ipanema, na penúltima casa da Avenida Coronel Lucena, Seu Oséas vendia puxa. (Puxa era um cordão de massa doce envolvido em papel manteiga). Os adolescentes que estudavam ali perto, no Ginásio, apreciavam a puxa vendida na bodega de Oséas. Homem de coração bom, alto, com uma pequena marca no rosto, Seu Oséas não tinha estrela para negociar. Segundo Marco Davi, ex-prefeito, morador quase vizinho da bodega, o sogro do comerciante, chamado Artur, ajudava o genro a se levantar. Aposentado do Fisco, o velho Artur chegara até a tomar conta da bodega para ensinar como se negociava. Tudo em vão. O genro não aprendia. Cansado de tanta coisa, Seu Artur desabafou com os conhecidos: “Vocês querem saber! Duas coisas nessa vida não vão para frente nunca; o Brasil e o meu genro Oséas!”.
Voltando ao caso das drogas, contra seu uso trágico e males gerais, vai se formando, sem dúvida, uma rede de assistência a saúde do usuário. Aos combates a traficante em fronteiras e em outros lugares; às advertências gerais sobre os perigos das drogas, misturam-se também à corrupção policial e à proteção de influentes figuras das mais diferentes profissões. O que fazer agora para não contaminar o restante dos jovens do País? Até quando vão proliferar as multidões de zumbis, como os da favela de Maceió? Dizem que tudo que o governo quer fazer faz. Mas é muito penoso acreditar que os problemas das drogas sejam resolvidos. Mesmo com todo otimismo sobre o caso, parece que essas questões fazem parte das palavras desesperadoras do aposentado do Fisco. O problema das drogas está difícil. Se a coisa fosse analisada pelo velho Artur, apesar das puxas doces, ele teria dito com toda certeza: “Três coisas nessa vida não vão para frente nunca! Solução para o craque, OSÉAS E O BRASIL”.


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