quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

RELEVANTE SERVIÇO

RELEVANTE SERVIÇO

(Clerisvaldo B. Chagas. 31.12.2009)



Satisfação imensa tive ao ler “O Legado do Professor e Geógrafo Ivan Fernandes Lima para Alagoas”, do também Geógrafo David Cristofher M. de Amorim. Este ensaio foi publicado no jornal Gazeta de Alagoas do dia 03 de outubro de 2009, às páginas A4 e A5.
Como nesse país só quem tem fama são cantor, ator e jogador de futebol, os nossos cientistas ficam esquecidos também em detrimento aos políticos. O trabalho do geógrafo e pesquisador David Amorim (estamos nos comunicando por e-mail) vem resgatar um dos autores mais cultos de Alagoas. Uma vida inteira lecionando Geografia possuo a obra do professor Ivan como a nossa bíblia geográfica. Esse livro com o título “Geografia de Alagoas”, foi adotado no antigo Curso Pedagógico que havia em Santana do Ipanema. Peguei-o com a minha esposa que fazia o curso, ficando admirado com o que vi. Ouro, puro ouro, o livro do professor Ivan. Ninguém até agora publicou obra semelhante no estado. Sobre Alagoas, o livro do professor passou a ser meu guia de cabeceira até o presente momento. Velhinho, soltando as páginas, manchado, continua bíblia porque ouro nunca deixará de ser ouro. Nem vendo, nem dou e nem empresto. Mas acuso também no “Legado do Professor”, outros trabalhos trazidos a lume pelo Amorim: “Maceió a cidade restinga”; “Ocupação Espacial do Estado de Alagoas”; “O Problema Geo-Sócio-Econômico-Político do Sururu Alagoano”; “Estudos Geográficos do Semi-Árido Alagoano: Bacias dos rios Traipu, Ipanema, Capiá e adjacentes”... Na verdade, nem precisava para mim, as palavras do emérito professor Aziz Nacib Ab’ Saber. Quem como nós apaixonados pela Geografia, encontramos a mina com a aquisição daquele exemplar para o Curso Médio.
A princípio eu queria fazer Geologia, curso que na época só havia em Recife, motivo que espantava esse desejo. Voltei-me para a Geografia. Pensava em ser geógrafo para o campo, terminei geógrafo para sala de aula. Hoje, conforme crônica publicada sobre a matéria cansei dos rumos incertos, dos conteúdos, das formas apresentadas pelas editoras. Quero geografia agora para consumo próprio. A vontade de fazer uma Geografia Física de Santana à altura do município e depois a de Alagoas, está quase morta pela falta de estímulo e verba. Mas essas palavras do último dia do ano, não foram para falar de meus trabalhos. Foi para reconhecer a feliz idéia do pesquisador Davi Amorim. Sua lembrança, iniciativa e ensaio, são dignos de louvor. O professor Ivan Fernandes de Lima é tudo o que disseram o pesquisador, Aziz e muito mais. Para Alagoas e para o Brasil, o professor Davi Cristofher M. de Amorim, em seu belíssimo ensaio, presta RELEVANTE SERVIÇO.

FELIZ ANO NOVO!

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terça-feira, 29 de dezembro de 2009

ÉRAMOS DEZ

ÉRAMOS DEZ
(Clerisvaldo B. Chagas. 29/30.12. 2009)

Vai à vida seguindo seu rumo natural. E agora na crônica 176, uma forte trovoada cai sobre o Sertão, acabando a feira de Santana do Ipanema. Um trovão mais poderoso que os demais apavora o mundo. Desce água copiosamente sobre as ruas e os telhados rosa da cidade. É sinal de salvação na sabedoria popular que o escritor aceita. E uma vez passada a tormenta, o canto de um galo se faz ouvir. O pedreiro na casa do escriba também interpreta o aviso animal: “Galo cantando fora de hora, professor, é coisa ruim que vai acontecer”. Estamos às quinze horas do último sábado. O escritor não responde e espera. As dezesseis e trintas um telefonema confirma o pedreiro. Neide Braga das Chagas, a doce irmã de 58 que nunca passou dos 13 anos, chegou à passagem. E a casa de Seu “Manezinho Chagas”, acusa mais uma baixa no montante de dez irmãos. E a Rua Antonio Tavares, de luto pelo companheiro de infância mecânico “Cícero de Ambrosina”, adiciona “Dona Florzinha”, figura popular e antiga no trecho. E novamente ─ num espaço curto de tempo ─ a rua contabiliza a partida de Neide. A moça de 58 anos, vítima de meningite aos 13, nunca mais deixou de ser criança. Muita querida na rua e adjacência, uma voz no coral da Igreja Matriz de Senhora Santana, Neide calou todas as suas interrogações. Em manhã abafada de domingo, segue num ataúde branco como branca, sem mácula foi a sua vida. Entre flores e cânticos vai recebendo as últimas mensagens pela existência pura e santa. Curvas, retas, colinas e a derradeira morada no abrigo Santa Sofia. Vai repousar ao lado da mãe Helena Braga das Chagas e do mano José Almir. Ficamos nós, irmãos e irmãs marcando nos corações as perdas familiares. De cinco homens, um já partiu. De cinco mulheres, um novo adeus. E a crônica diária obrigatória sai. Mas sai capenga, vestida de negro, abafada, forçosa, sangrando o peito atingido. É possível sim, diz a fé, a existência de um lugar melhor para os limpos. Uma recepção calorosa, entusiasta dos que foram à frente. Dos amigos, dos conhecidos, dos pecadores que ornaram a amizade. O outro lado há de entrar em júbilo ao acusar o êxito final de missão cumprida. E Neide irá ainda ao desfile, inebriante, mas feliz ao lado de tanta gente conhecida.
A Rua Antonio Tavares fica às escuras. Vão retirando-se de cena personagens marcantes que ornamentaram a via. Uma saudade longa na casa de “Seu Manezinho Chagas”; Uma geral tristeza que sufoca. E as nuvens chumbos e mensageiras trocam a roupagem no domingo pós. O céu se enfeita num azul suave de nuvens rendadas; um céu amigo, complacente, acolhedor, receptivo, às boas almas.
É preciso fechar a cortina para novos atos, no teatro da existência. São aplausos à decisão divina na rosa-dos-rumos, na sabedoria eterna. A Terra esvazia uma cadeira, o céu ganha mais uma estrela. É mais um brilho a iluminar os passos desencontrados da humanidade.
Agora somos apenas oito, mas no tempo recuado ÉRAMOS DEZ.

Nota: Por problema no provedor, não foi apresentada crônica na segunda.


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terça-feira, 22 de dezembro de 2009

UMA BOIA AOS NÁUFRAGOS

UMA BOIA AOS NÁUFRAGOS
(Clerisvaldo B. Chagas. l6.12.2009)

Neste início de verão, recebo telefonema de um amigo solicitando os préstimos do espaço. Essa pessoa bem sucedida financeiramente tornou-se alcoólatra, conseguiu sair da situação, voltou à bebida e agora tenta segurar-se definitivamente. Resolvendo socorrer a si mesmo e ao próximo, dedicou-se a divulgação dos Alcoólatras Anônimos - AA, com denodo e fé. É muito fácil cair na esparrela da bebida, difícil é sair da armadilha. Um gole hoje, outro amanhã, um fim de semana embriagado, o encontro com os amigos e finalmente o domínio absoluto da aguardente... Da cerveja. Uma vez viciado, as companhias passam a ser somente de outros viciados. Assim vem as dívidas, a perda de emprego, as desavenças em casa, a depressão... A consciência do fracasso. Não raras vezes são as brigas no trânsito, os assassinatos pela intolerância e a própria vergonha de não encontrar forças para reagir.
Santana do Ipanema, Maceió, Arapiraca e quase todas as cidades brasileiras contemplam com tristeza grupos de jovens dedicados ao vício da embriaguez. Ao ser advertido, o rapaz costuma sempre dizer que não é alcoólatra, que bebe apenas uma cervejinha em final de semana. Mas se ninguém da família tiver pulso forte para afastá-lo dos bares, o futuro não é de maneira alguma promissor. Tenho alertado parentes a amigos para o maléfico, mas fiquei impressionado com a força de luta pelos demais, através do amigo do telefonema. Prometi uma crônica sobre o assunto e estou contribuindo com o que disponho. A palavra amiga e orientadora no espaço reservado.
Entre inúmeros conselhos do meu velho ─ vez em quando citados alguns nesses escritos ─ estava um sobre os vícios. Dizia ele: “quando o homem resolver deixar um vício qualquer, a primeira providência é conversar com Deus e pedir ajuda. Com Deus tudo, sem Deus nada. Não se vence o vício sem ajuda de Deus". Agora para complementar o amor pelos que sofrem, surgiu o AA, refúgio e orientação para os apanhados pelo vício da embriaguez. Em Santana do Ipanema o AA já funcionou em outros lugares e, se não me engano, passou algum tempo sem um ponto fixo. O meu amigo pede para que divulgue o endereço e dias de reuniões. O AA está funcionando no Sindicato dos Trabalhadores Rurais, no Bairro Camoxinga (vizinho ao Hospital Dr. Arsênio Moreira) em Santana do Ipanema. As reuniões acontecem as terças e as sextas às 20 horas. Para informações sobre o AA, é bastante dirigir-se ao Sindicato Rural nos dias e horas estabelecidos. A frase de mão estendida dos Alcoólatras Anônimos é: “Se você não quer deixar de beber, o problema é seu; se quiser parar de beber, o problema é nosso”. Em Olho d’Água das Flores também existe um AA em funcionamento. Se você é alcoólatra, salve sua vida antes que seja tarde, procure o lugar certo. Mas se você apenas conhece um amigo, um companheiro precisando de ajuda, leve-o ou o encaminhe a uma reunião do AA, UMA BOIA AOS NÁUFRAGOS.

FELIZ NATAL E ATÉ SEGUNDA-FEIRA!

AA. Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Bairro Camoxinga, Santana do Ipanema, Alagoas. Reuniões as terças e sextas às 20 horas.
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segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

CONTINUAR A JORNADA

CONTINUAR A JORNADA
(Clerisvaldo B. Chagas. 22.12.2009)

Sendo esta a semana do Natal, nada mais gratificante de que a reportagem da Rede Record, com o título: “Os Sete Milagres de Jesus”. Um presente máximo para quem se interessa pela religião. Curiosidades sobre a parte física da antiga Palestina onde viveu o Mestre. A apresentação aconteceu domingo passado à noite, com segurança e didática dignas dos maiores elogios. Afinal, muita gente esquece o verdadeiro dono da festa que o deus comércio quer trocar por Papai Noel. Para muitos cristãos supérfluos, o velhinho europeu é quem tudo comanda numa fantasia exagerada que supera o sentido do Nascimento. O mal não está em reconhecer o ancião de barbas brancas, está em elevá-lo ao pedestal que não é dele. Jesus está em poucos lares, Noel em todas as vitrinas. E se os adultos esquecem quem os convidou para os festejos, imaginem as crianças ansiosas pelos embrulhos.
Lembramos perfeitamente de duas coisas marcantes na adolescência. Havia duas farmácias importantes em Santana do Ipanema que chamavam atenção com objetos à parte. Uma delas era o busto de um negrão lustroso envergando resistente barra de ferro. Essa estatueta fazia parte de propaganda de certo xarope e já foi motivo de crônica neste espaço. O outro objeto era um cartaz com alegoria sobre a porta estreita e a porta larga que se tornou tradicional na Farmácia Vera Cruz. O motivo era uma alusão ao comportamento humano com a advertência: “Entrai pela porta estreita”. A preocupação consumista parece que vai tornando a porta estreita mais estreita ainda. E como “A” puxa “B” e “B” puxa “A” de novo, não custa nada lembrar a passagem de Jesus na casa de duas amigas. Enquanto ele palestrava sobre a vida com uma delas, a outra se preocupava em cuidar da casa. E a segunda recebeu amistosamente uma advertência sobre o que era mais importante.
Dizia Nelson Gonçalves em uma das suas belíssimas canções:

“Esses moços
Pobres moços
Ah se soubessem
O que eu sei (...)”.

Não, não somos contra a fantasia do Papai Noel. Mas não podemos esquecer que é para o filho de Deus todo o aparato, toda honra e toda glória dos preparativos de dezembro. Quem conhece a sugestiva frase de lameira de caminhão: “Eu não sou o dono do mundo, mas sou filho do dono”? Bem elaborada, não? Ah, com seria bom se esse reconhecimento também fosse feito no Natal!
É tempo de reflexão; de um balanço profundo nos proveitos e desperdícios de 2009. E que as lembranças das boas semeaduras não aconteçam somente na missa do galo, na leitura da porta estreita ou em lameira de caminhão. “Ah esses moços (...)”. Vamos CONTINUAR A JORNADA.





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domingo, 20 de dezembro de 2009

PRESTAR ATENÇÃO

PRESTAR ATENÇÃO

(Clerisvaldo B. Chagas. 21.12.2009)

Sempre soubemos que as piores situações da vida deixam resíduos positivos. Assim como a bateia do faiscador deixa passar a água suja e retém o ouro, as vicissitudes também deixam a sabedoria.
Vendo por um ângulo a conferência de Copenhague, foi um fracasso. Olhando por outro lado, um degrau acima. Nunca na história da humanidade houve tanto interesse e participação como no encontro da Dinamarca; nem mesmo durante e após os dois conflitos mundiais. Estamos em uma nave só, chamada Terra. Não existe uma segunda morada para o homem. Caso a ela aconteça algo, todos pagarão o mesmo preço nem que seja de forma diferente. Acontece que os ricos ainda querem manter a pose, como aquele que pensa enganar a morte mandando o outro primeiro para o cadafalso. Quando o navio submerge também vai o comandante.
Resvalando do assunto climático realizado na Dinamarca, notamos claramente a política vacilante do presidente americano. Com o congresso ou sem ele, Obama continua com sua dúbia política inicial. É como se tivesse medo de um escorrego que manchasse a elegância da vitrina. A nação mais poderosa tem um peso, sim; por isso todos esperavam melhor posicionamento naquela conferência. Entretanto, como dissemos em nossos trabalhos anteriores, o mundo já iniciou uma nova ordem que só os americanos não veem ou não querem ver, porque eles sempre ficaram dentro da bolha. As nações se fizeram ouvir. As forças intermediárias de Brasil, Índia, China e África do Sul, mostraram aos ricos que está havendo uma revolução em busca de novos assentos para lideranças globais. Os pobres também resistem. A transformação já está sendo feito e será consolidada nos próximos cinco ou dez anos. É irreversível.
O Brasil está sabendo aproveitar o momento. Ou fracassando ou não a conferência do clima, o País sai com a voz ouvida e respeitada, tanto pelos pobres quanto pelos ricos mais os seus colegas emergentes. Como disse o ministro espanhol, o Brasil já é presente de um futuro que nunca chegava. Agora a República passa a fazer o papel de ator global, queira ou não o Tio Sam. Após a rodada de Copenhague o mundo não será mais o mesmo no assentamento da poeira. E os países desenvolvidos ─ graças às explorações de colônias nas Américas, Ásia e África ─ irão sentir seus antigos escravos à porta querendo ser também sócios do mundo. A conferência para o clima deixa um leque de novas posições políticas, sociais, econômicas que irão criar sulcos profundos na Geopolítica. Se as nações pobres e emergentes saem desanimadas sobre acordos ecológicos, o ensaio dos movimentos em blocos mostra o contrário. Novas forças são incorporadas ao torneio mundial de quebra-de-braço. De agora em diante é só PRESTAR ATENÇÃO.



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quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

VIRADA NO CÃO

VIRADA NO CÃO

(Clerisvaldo B. Chagas. 18.12.2009)

Dois Riachos é uma pequena cidade sertaneja alagoana situada no Sertão. Foi planejada para ser cidade, quando aconteciam os trabalhos de rodagem da BR-316. A primeira ponte na BR sobre o riacho Dois Riachos foi o marco da sua fundação. Atualmente a ponte não faz mais parte da BR-316, mas foi conservada e continua servindo na periferia, sendo uma relíquia e peça de museu a céu aberto. Adquirindo terras de Santana do Ipanema e de Major Isidoro, o antigo povoado Garcia, passou à condição de município de acordo com a lei estadual Nº 2238 de 7 de junho de 1960, desmembrando-se de Major. O que mais chama atenção em Dois Riachos ─ cidade com mais de 10.000 habitantes e situada a 245 metros de altitude ─ é sua feira de gado. Apresentada semanalmente entre o riacho de origem e a BR-316, a feira tornou-se a segunda do Nordeste nesse tema. Já foi motivo de várias reportagens e é hoje importante fonte de pesquisa econômica e social do povo sertanejo. Mantendo sua tradição pecuarista, o município conta anualmente com uma festa de vaquejada que atrai autoridades de Alagoas e pessoas de várias partes do Nordeste. Como orgulho maior, a cidade exibe agora uma faixa permanente na entrada, exaltando a jogadora melhor do mundo, sua ilustre filha Marta.
E por falar em Marta, quem assistiu Brasil X China, na noite da última quarta-feira, teve o prazer de verdadeiro espetáculo. Primeiro foi a própria China quem proporcionou a satisfação, por ser um país asiático com futebol e pessoas características. Depois a própria vontade de vê o futebol feminino se desdobrando. Diga-se com sinceridade, o Brasil não foi essa coisa toda no primeiro tempo; mas no segundo foi. Um espetáculo para macho nenhum botar defeito. Dois Riachos deve ter ficada eufórica diante da telinha vendo sua filha famosa fazendo misérias em campo. Cristiane foi um espetáculo à parte nessa partida do “Torneio Internacional Cidade de São Paulo”. A bonita jogadora está “comendo” a bola. Retranca chinesa no primeiro tempo, ousadia no segundo para assegurar a vaga na final, a China apenas valorizou a vitória brasileira. Com Marta fazendo dois gols (sendo um de pênalti) e Grazielle um, o Brasil fica mais fortalecido no Torneio. Quanto a Marta, deve ter enchido de mais orgulho os riachenses. Com jogadas espetaculares e encantadoras, a camisa 10 deve ter afastado de uma vez por todas a discriminação que rondava o futebol feminino. Uma Pelé de verdade. E usando a nossa expressão sertaneja nordestina emprestada à novela, estava VIRADA NO CÃO!


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quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

CONSCIENTIZAÇÃO

CONSCIENTIZAÇÃO
(Clerisvaldo B. Chagas. 17.12.2009)

Iniciando devagar igualmente às nascentes de um rio, foi surgindo à consciência ecológica no mundo. Pequenos movimentos ilhas começavam a ocupar minúsculos espaços nos jornais. Outras fontes de resistência foram aparecendo e como os pequenos afluentes, foram engrossando o todo que desembocou nas grandes reuniões de cientistas. Daí em diante foi como uma explosão que atingiu em cheio a sensibilidade ecológica adormecida. Os constantes alertas sobre uma hecatombe climática no planeta não está deixando mais ninguém quieto. Todos os meios sociais falam do assunto, principalmente nas escolas do governo e particulares. Ninguém quer ficar fora dessa onda boa para salvar o mundo em que vivemos.
Agora temos a “Conferência das Nações Unidas Sobre Mudanças Climáticas” na Dinamarca. Estão ali, além de representantes do mundo inteiro, várias ONGS, ativistas, jornalistas, pesquisadores e inúmeros curiosos vindos de todos os recantos do planeta. Mesmo sendo um país organizado, a emoção toma conta da desordem formada por uma multidão. De qualquer maneira, chegando ou não a um grande acordo, passos importantíssimos para a humanidade já foram dados. É a ocasião, inclusive, de muita gente aparecer, do famoso ao anônimo. Confusões, brigas, zoadas e cassetetes, mas com objetivos. Após essa conferência, seja como for, o mundo não será mais o mesmo.
A Dinamarca, cuja capital é Copenhague, está situada no Norte da Europa, na península da Jutlândia, banhada pelos mares Báltico e Norte. Faz parte de uma monarquia constitucional com sistema parlamentar de governo. É membro da União Européia desde 1973 e da OTAN, da qual também é fundadora. A Dinamarca pratica o governo do estado do bem-estar social. É considerado o “país mais feliz e o mais pacífico do mundo, bem assim como o menos corrupto entre as nações”. São eficientes os sistemas de Educação e Saúde. Aliás, os países nórdicos da Europa são ricos e de vanguarda.
Deixando Copenhague e se voltando para o Sertão de Alagoas, infelizmente as providências estão chegando quase tarde demais. Em alguns lugares, tarde mesmo. A caatinga original está praticamente fora do mapa. O desmatamento acelerado movido pela ignorância, aliado a omissão dos órgãos governamentais, deixou o bioma em situação caótica. Mesmo que haja um grande movimento de recuperação da caatinga, tudo indica, não escaparemos da catastrófica desertificação. Como já falamos dezenas de vezes, nós sertanejos somos os últimos a receber as novidades do progresso. Em Alagoas ─ continuamos a afirmar ─ os benefícios somem antes de descer a ladeira de Satuba rumo ao Sertão. Sempre foi assim. Não sabemos se sempre será.
Copenhague está distante. Nosso Sertão muito presente; sem onça, sem tamanduá, sem peba... Sem tatu. A bicharada foi extinta pelo desmatamento. Torcemos para que os gritos lançados na Dinamarca alcancem o Nordeste, Alagoas, o Sertão velho abandonado à própria sorte. CONSCIENTIZAÇÃO.

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terça-feira, 15 de dezembro de 2009

O NARIZ DE BERLUSCONI

O NARIZ DE BERLUSCONI

(Clerisvaldo B. Chagas. 16.12.2009)

Certa feita Lampião caminhava em território baiano. Uma seca das maiores castigava tudo. O bando enfrentava altíssima temperatura, levando o “Rei do Cangaço” ao desespero. Não suportando mais o calor contínuo e infernal, Virgulino jogou sua arma ao solo e pronunciou enraivecido: “Tomara que não chova mais nunca!”. Um dos grandes que marchava ao seu lado ─ cangaceiro Labareda ─ recriminou imediatamente o chefe, graças ao prestígio que desfrutava: “Não diga uma coisa dessas, capitão. Isso ofende o Nosso Senhor Jesus Cristo”. Virgulino refletiu com rapidez e aceitou na hora a censura do seu famigerado Ângelo Roque.
Quando eu era menino, minha mãe costumava comprar bananas a um homem feio de voz rouca, nas feiras dos sábados. Ele havia feito precisamente o contrário do ato de Lampião. Aborrecido com chuva demais em sua lavoura, o indivíduo pensava atingir Jesus Cristo dando um tiro na chuva. Dizem que por esse motivo ficou com aquele aspecto horrível que chamava atenção.
As duas histórias diferentes traduzidas pelo povo asseguram uma ofensa a Deus por atos e intenção. O caso do primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi, parece com os dois exemplos, sendo muito mais pesado ainda. Ofensas contra Deus e contra o povo; inclusive orgias sexuais repetidas por Berlusconi, são mostradas constantemente pela internet. Formas de desprezo à sociedade em que governa. As gafes, à indiferença a outros chefes de estado, indicam um parafuso a menos ou a mais na cabeça do primeiro-ministro. Lembro-me de uma crítica antes da sua posse que dizia que a Itália estava sem opção. Os outros candidatos seriam piores que Berlusconi. Está aí a falta de opção.
O desavergonhado proceder de dirigentes pode chegar a um ponto perigoso. O episódio da estatueta arremessada por Massimo Tartaglia, apenas reflete a reação do povo sem mais paciência pelas presepadas nocivas do seu ministro. Paciência tem limite. O resultado do ataque de Tartaglia foi o nariz quebrado e dois dentes fora com escoriações no rosto do primeiro-ministro. Não sabemos se existiu também dor moral. Caras-de-pau não tem sentimento. Eles são colhidos, presos, ridicularizados. Tempos depois ressurgem diante das multidões como se fossem os heróis da pátria, Superman, Batman... Homem-aranha.
Nada justifica a violência. Para questões existe a Lei que deve ser respeitada por todos. Mas provocar as massas pode ser exceção como no caso italiano. Se a moda pega no Brasil, todos os dias teríamos dentes voando, escoriações faciais e ventas estatuetadas, mais ou menos como O NARIZ DE BERLUSCONI.




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segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

O CARRO DE ZÉ LIMEIRA

O CARRO DE ZÉ LIMEIRA

(Clerisvaldo B. Chagas. 15.12.2009)

NAS décadas 1950-1960, brincávamos muito com os carros de ladeira. Pegávamos os carros de pau, levávamos para o alto e descíamos as colinas que davam para o rio Ipanema. Aquele fabricado pelo maleiro Zé Limeira, filho da professora Adelcina Limeira, era o mais bonito de todos. Dava um trabalho medonho empurrar os brinquedos até o topo, mas quando descíamos montados era somente pura emoção.
O funcionamento do hospital Dr. Clodolfo Rodrigues de Melo, é uma das sete grandes lutas do santanense. A juventude não sabe das seis gigantescas batalhas que travamos pelas conquistas de valiosas prioridades. Claro que houve outras lutas, porém, nenhuma como as seis que estão abaixo. A briga pela energia de Paulo Afonso ─ depois que o motor alemão que abastecia Santana quebrou ─ foi a maior de todas. Quatro anos no escuro justificava todo movimento da sociedade organizada. Foi assim que surgiu como instrumento de guerra, a primeira rádio do município. Funcionando na clandestinidade, a Rádio Candeeiro (como referência ao escuro reinante) teve papel de destaque no ânimo da juventude sequiosa de desenvolvimento. Essa foi a briga mais bonita e participativa de Santana. Outra luta importante foi pela conquista da água encanada do rio São Francisco, através da adutora de Belo Monte, cidade ribeirinha de Alagoas. Entre os seis embates anteriores está o do hospital Dr. Arsênio Moreira, situado no Bairro Camoxinga. Nesta meia dúzia não poderia faltar a construção da ponte Gen. Batista Tubino sobre o intermitente rio Ipanema, o que motivou os futuros bairros da margem direita. Ainda com a sociedade organizada lutando como podia, tivemos também a conquista do asfalto Palmeira dos Índios/Santana, através da BR-316. E finalmente a última das seis grandes lutas foi pelo terminal rodoviário que acabou sendo implantado no Bairro Monumento, vizinho a Associação Atlética Banco do Brasil. Esta foi a única que chegou fora de época, ocasião em que o transporte alternativo superou os ônibus tradicionais.
Trava-se agora a sétima batalha que é pelo hospital geral que já tem o nome do primeiro médico da terra, Clodolfo Rodrigues. Construído no governo municipal Marcos Davi, o prédio é formidável e leva um tempo enorme para conhecê-lo por dentro. Verdadeiro labirinto. Situado entre as localidades Conjunto Marinho e Cajaranas, é a atração turística no sopé da serra Aguda. Não acreditamos que haja falta de interesse das autoridades. O que falta é participação social como algumas das outras lutas citadas. Dessa vez o povo se acomodou como se não tivesse mais entusiasmo para continuar lutando. Os políticos, então, resolveram movimentar essa causa mostrando trabalho no rádio e em outros meios de comunicações. Mesmo assim, acreditamos que no próximo ano, mesmo sendo ano eleitoreiro, estará funcionando o hospital Dr. Clodolfo Rodrigues que até agora tem sido apenas um elefante branco. O problema, segundo o que estamos ouvindo, é colocar o carro na cabeça e levá-lo até o topo da ladeira. Daí, ladeira abaixo todo santo ajuda. Caso realmente os políticos cumpram o que estão assegurando, teremos orgulho de ver funcionando O CARRO DE ZÉ LIMEIRA.


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domingo, 13 de dezembro de 2009

NO TEMPO DA PROGRESSO

NO TEMPO DA PROGRESSO
(Clerisvaldo B. Chagas. 14.12.2009)
Para os jovens estudantes de Santana do Ipanema

   Relembrando daqui de Maceió os tempos de estudante, chegam à cabeça partes da história do Sertão e de Alagoas. Sertão de estradas de terra, de asfalto buraqueira. Na capital batia a saudade do interior e os pensamentos galopavam para Santana do Ipanema. Um filho que nunca renegou suas origens. Quando surgia uma oportunidade: a saída da rodoviária velha do Bairro Poço; o cheiro repulsivo do carbono; os lanches invariáveis do balcão; os olhares ansiosos dos quase passageiros marcavam o estudioso. Mas a vontade pétrea de retornar à casa paterna cobria tudo. E lá vai o ônibus da empresa Progresso demorando a rodar. A marcha de alavanca comprida “dando croques”; a paciência diplomada do motorista. Ah! O carro parece não sair de Maceió na sua lentidão. A ladeira de Satuba, sempre marcada como verdadeiro início da viagem, não quer chegar. Quatro horas, quatro horas e meia Maceió/Sertão. Pensamentos febris nas ruas de Santana, nos becos de Santana, nas matas de Santana. Eita viagem longa, meu Deus! Somente após o antigo povoado Bola, hoje Estrela de Alagoas, a alegria começava a fluir. Era para nós outro marco a primeira descida ao Sertão. Rio Traipu, fazenda Mair Amaral, entrada para a cidade Minador... E lá se ia o ônibus da Progresso. Passa Minador do Lúcio (Minadorzinho), chega a Cacimbinhas; desce todos para a churrascaria do Josias, perto do antigo e solitário posto de gasolina. Adicione tempo. Finalmente o transporte segue com sua zoada característica, para aqui, para acolá; nova marcha, nova força. Já estamos no Sertão, quase em casa, mas ainda restam a pedra do Padre Cícero, a cidade de Dois Riachos e duas ladeironas para o povoado Areias Brancas. Agora sim, faltam 12 km para a chegada a “Rainha do Sertão”. Ponte sobre o riacho Gravatá, o cenário da última curva para o serrote Gonçalinho, poço Escondidinho no rio Ipanema. A empresa Progresso acaba de completar mais uma parte na história dos transportes em Alagoas.
Mesmo agora em viagens de automóveis, conservamos as mesmas ansiedades, os mesmos marcos como a ladeira de Satuba, o rio Traipu, a pedra do Padre Cícero. Crônica amarga e doce não fácil de fazer, essa NO TEMPO DA PROGRESSO.

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quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

FECHANDO A SEMANA

FECHANDO A SEMANA
(Clerisvaldo B. Chagas. 11.12.2009)

Para amenizar o final dos dias úteis, marcados pelas tragédias dos jornais, encerremos com poesias. Vamos contar dois casos acontecidos em sextilhas (estrofes de seis versos com sete sílabas). O primeiro tem uma terminação chula, porém, o importante é a criatividade, a rima incomum e a métrica perfeita.
O cantador violeiro-repentista gosta muito de cantar às belezas naturais: o Sol, a Lua, as montanhas, rios lagos, lagoas, inverno, verão... Entre os repentistas se destacam aqueles que são mais específicos em determinados gêneros. Fulano é bom em martelo agalopado, beltrano é ótimo em temas, cicrano é mais lírico e assim em diante. Quando se canta em sextilhas (estrofes básicas de seis versos) o cantador tem que iniciar a sua estrofe rimando com a última palavra da estrofe do companheiro para evitar balaio (jogar verso decorado no meio do improviso como quem passa “rabo de porco” no jogo de dominó).
Pois bem, segundo o saudoso vereador Zé Bodinho e o Cecéu mecânico, uma dupla se digladiava em algum lugar do Nordeste. Um dos cantadores descrevia as maravilhas físicas do mundo e fez uma estrofe mais ou menos assim:

Admiro o céu azul
Que parece uma esplanada
Sem ter cola no espaço
A nuvem fica parada
Admiro a chuva fina
No bojo da madrugada

O outro cantador, afeito mais às coisas do sertão, aproveitou a deixa e disse:

“Eu admiro isso nada
Admiro é o teiú
Que corre dentro do mato
Descalço pelado nu
Com tanta velocidade
Não pega um toco no c...”

É pena não sabermos o nome do autor. O segundo caso foi contado pelo repentista e apresentador da TV Diário, amigo Geraldo Amâncio, defronte a Matriz de Senhora Santa Ana. Não falou sobre o autor da façanha. Um cantador cantava sozinho em uma tolda na feira. Elogiava os transeuntes. Alguns paravam com o elogio e depositavam sempre uma nota de real, não passavam disso. Acontece que o poeta avistou uma dona muito bonita e elegante que se aproximava. Rapidamente indagou ao barraqueiro quem era ela. O homem respondeu que se tratava de uma rapariga, a dona do cabaré local. Ao passar pela tolda, a mulher recebeu um inspirador elogio do poeta. Vaidosa, voltou-se, abriu a bolsa e depositou no prato duas notas de 10 reais. Ora, para quem só estava recebendo de um, o repentista ficou eufórico e agradeceu:



“Muito obrigado dona
Pela paga verdadeira
Mal empregado esse nome
Que lhe dão mulher solteira
Raparigas são as pestes
Que andam lisas na feira”.

(OBS. Leitor assíduo: mande suas impressões sobre os nossos trabalhos através de E-mail ou pelo mural (pombo-correio) do Site Santana Oxente. Não ficará sem resposta, inclusive crônicas dedicadas quando caírem no seu perfil). Até segunda.
Esta crônica saiu adiantada. Correu na frente dizendo: Não me pega, seu besta!





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quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

O GLOSADOR E A GLOSA

O GLOSADOR E A GLOSA
(Clerisvaldo B. Chagas. 10.12.2009)
Para os que apreciam o mundo dos sonhos.

Continuando para o leigo uma explanação sobre poesia popular, temos a glosa e o glosador. Geralmente o glosador é um poeta que não canta; um apologista que tenta; um violeiro repentista sem a viola. O glosador improvisa versos falando normalmente. A maioria dos casos com glosadores acontece em pé de balcão, em caminhadas com amigos, ou em rodas de repentistas em repouso. A glosa é uma composição poética que antes se repetia o tema ou mote feito nos últimos quatro versos (também chamados linhas ou pés) hoje em desuso. Ficaram, então, somente dois pés (os dois últimos) ou um pé só (o último da estrofe). A glosa de um só verso também é coisa rara. O mais comum é a glosa em décima de dois versos. O saudoso poeta Zezinho da Divisão (fronteira Santana/Carneiros) era mestre em glosa de um pé só. Exemplo: “Só vai arrochando tudo”. Um exemplo completo foi quando deram o tema em um pé só a determinado poeta: “Sua mãe foi fêmea minha”. Esse mote foi criado por um sujeito que não gostava de glosador e queria desmoralizá-lo. Recebeu como resposta mais ou menos o seguinte:

“Sua avó velha safada
Seu avô um beberrão
O seu pai foi um cornão
Sua tia depravada
Sua prima era falada
Sua irmã uma galinha
Seu irmão foi mariquinha
Com sua traseira gasta
Você mesmo é pederasta
Sua mãe foi fêmea minha.”

Outra glosa com o tema: "tudo é desgosto na vida".

O homem faz plantação
A chuva às vezes não tem
E quando essa chuva vem
Não dá preço o algodão
Mas se viceja o feijão
Vem a lagarta comprida
Se a safra não for perdida
Só querem comprar fiado
Pobre só vive lascado
Tudo é desgosto na vida.

Muita atenção porque como na cantoria, a exigência também é na rima correta (amor com temor; Sé com José). Rimar Ceará com ferrar, é crime na poesia dos repentistas. Outra coisa é o número exato de sílabas. São medíocres os versos que tem uma sílaba a mais ou a menos. Ferem os ouvidos. Algumas publicações gráficas na cidade estão nesse nível, mas não ousamos criticar ninguém. Apenas a minha leitura não passa da segunda estrofe.
O poeta Rafael Paraibano da Costa, professor de Zé de Almeida, era ótimo e tranquilo no assunto de glosar. É gostoso ouvir O GLOSADOR E A GLOSA.




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terça-feira, 8 de dezembro de 2009

AINDA OS REPENTISTAS

AINDA OS REPENTISTAS
(Clerisvaldo B. Chagas. 9.12.2009)
Para os apologistas Fábio Campos, João Oniel - poetisa Andréia, Telma Cirilo e poeta Carlindo

Não posso guardar apenas para mim as histórias de versos obras-primas dos cantadores nordestinos. Duas passagens importantes para nós apresentamos hoje. Uma com José de Almeida e outra com o poeta Granjeiro. Antes, porém, é preciso esclarecer que os repentistas tem suas regras obedecidas rigorosamente. Uma delas é o final da rima. Não cabe, por exemplo, Ceará com Alencar. Uma tem acento, a outra tem um “r”. Caso o poeta cometa esse erro, será um defeito grave. Outra coisa são as rimas pobres que não valorizam o verso a não ser que haja muita criatividade: “ão”, “ado” e “ia” estão nesse grupo. A rima sendo rara somada à criatividade pode formar a obra-prima; aquela estrofe que passa de boca em boca por gerações e pelo mundo encantado dos repentistas. Foi com a terminação “ó”, que José de Almeida foi ovacionado em Paulo Afonso há bastante tempo. Todos queriam conhecer o poeta santanense que se firmava na cantoria pegando fama. Convidado para cantar com Jó Patriota na “Capital da Energia”, José de Almeida apresentou-se primeiro com um poeta chamado Manoel de Filó (uma fera também assim como Jó Patriota). Na segunda baionada (parte), após o experimento, Almeida senta com Jó Patriota e inicia ─ para felicidade geral do mundo da viola – a seguinte obra-prima em sextilha:

“Já cantei com Manoel
Agora canto com
Um é cobra canina
Outro é cobra de cipó
Eu no mei’ me defendendo
Com um taco de mororó

Foi delirantemente aplaudido.

Pela boca do cantador desistente como eu, José de Sebastião, funcionário público da prefeitura de Santana, ouvi essa outra história. O poeta Granjeiro (não lembro o primeiro nome) cantava em determinado lugar quando pediram um mote em décima: “No coração da criança/ não tem ódio nem rancor”. Ora, baseado em que São Miguel é quem pesa os pecadores, o poeta famoso em fazer belíssimas estrofes de tema ou mote, saiu-se com esta, após o seu parceiro:

“Quando morre um pequenino
Sobe envolto num véu
Chega às portas do céu
Miguel diz para o Divino:
“Vamos pesar o menino
Que é filho de pecador”
“Jesus lhe diz não senhor
Pode guardar a balança
No coração da criança
Não tem ódio nem rancor
”.

Quando acontece uma estrofe assim, é chamada pelos poetas de “verso grande” e de “impagável”, isto é, o parceiro não fará um melhor do que aquele. E depois de vibrantes aplausos da platéia entendida, o parceiro para essa baionada em sinal de respeito à estrofe tão criativa do colega.
No bizaco trago AINDA OS REPENTISTAS.
(Obs. Na crônica de ontem, “Possante Monumento”, parágrafo segundo, leia-se cúpula e não cripta.)


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segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

POSSANTE MONUMENTO

POSSANTE MONUMENTO
(Clerisvaldo B. Chagas. 8.12.2009)

Quando o Cônego Bulhões resolveu reformar a Igreja Matriz de Senhora Santa Ana, estava iniciando um arrojado empreendimento. História e reformas da igreja são contadas no livro inédito O Boi a Bota e a Batina, história completa de Santana do Ipanema. Terminada a reforma, com o Cônego Bulhões já enfermo, surgiu uma torre com 35 metros de altura numa época sem avançada tecnologia. Com as modificações narradas no livro acima, a igreja havia recebido ultimamente uma reforma externa na entrada principal sob a batuta do Cônego Delorizano Marques. Não satisfeito com apenas as modificações de entrada, o cônego planejou o recuo do altar-mor. Além do acréscimo de espaço, esse recuo proporcionou um novo quadro que agradou em cheio. Como ficamos ausentes das missas dominicais por certo período, tivemos a grata surpresa das modificações positivas daquele sacerdote. A reforma interior faz jus à tradição da igreja de Senhora Santa Ana. Notamos que os quadros da via-sacra foram substituídos por outros modernos e prateados que fazem um bonito efeito com a cor do teto. O granito negro do piso, juntamente com outras cores, ajuda o embelezamento daquele majestoso templo católico. O Cristo na cruz ─ confeccionado por um dos fundadores de Santana e primeiro padre Francisco Correia ─ recebeu prolongamento dourado nas extremidades da madeira. Ao fundo, quadro representativo da história cristã e desenhos do céu em azul profundo com nuvens esparsas e brancas, impressionam. E se a igreja de Senhora Santa Ana já era o mais belo monumento do Sertão, imaginem agora! Aliás, o Cônego Delorizano Marques, demonstrou bom gosto nas suas realizações físicas como o santuário dedicado à Virgem de Guadalupe, à margem da BR-316. Monumento esse também dedicado à passagem do século XX para o século XXI.
Destoando docemente da arquitetura sertaneja, o santuário visto ao entardecer das proximidades da UNEAL, com seu destaque de vidros azuis e cripta prateada, parece fazer parte de paisagem nórdica européia. Dessa maneira a cidade possui agora três marcos de passagem de séculos. O Cruzeiro do serrote e a igrejinha de Nossa Senhora da Assunção (XIX-XX) e o santuário da Virgem de Guadalupe (XX-XXI).
Voltando à Matriz de Senhora Santa Ana, continuamos com a mesma idéia já exposta várias vezes: cartão de visita da cidade deveria ser o ponto turístico número um se houvesse algum interesse sobre o ramo. Enquanto o turismo continua como um sonho distante, vamos nós mesmos, de Santana e das cidades circunvizinhas, curtindo a beleza do nosso templo maior. Queremos apreciar e estudar mais esse POSSANTE MONUMENTO.


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domingo, 6 de dezembro de 2009

PLANEJAR SANTANA

PLANEJAR SANTANA
(Clerisvaldo B. Chagas. 7.12.2009)

Sobre Santana do Ipanema, afirmamos em outra crônica não haver falta de terrenos. Terras tem de sobra nas áreas de saídas da cidade para Dois Riachos, Olho d’Água das Flores, Poço das Trincheiras e Águas Belas. Enormes e bonitas áreas onde tudo pode ser construído como conjuntos habitacionais, hospital, clínicas, centro de compras, casas de repouso, fábricas e muito mais. Apenas estávamos contrariando os que de má vontade dizem haver falta de espaço. Caso tudo fosse construído no centro, como poderia a cidade se expandir? No final do Bairro Barragem, saída para Poço das Trincheiras, foi construído um belo posto de gasolina. Até aí tudo bem. Mas acontece que essa área era considerada morta ou contramão para negócios. Com o posto de gasolina, porém, outros investimentos foram atraídos e podemos contar agora com uma churrascaria, um mercadinho, um amplo espaço de vendas de material de construção e brevemente uma pousada. Ficamos surpreendidos agora quando também nas imediações do posto, um enorme terreno foi completamente limpo para construção de conjunto habitacional do governo. Estávamos certos. Saída sempre marginalizada, essa para a cidade do Poço, começa a ser enxergada e valorizada. É assim que surge por trás do Bairro Barragem o Clima Bom que, infelizmente ainda não despertou a atenção da prefeitura. Abandonado de pai e mãe. Se ali houvesse planejamento, aquele pedaço de terras, a partir da ponte na BR-316 até a chã em direção a Paulo Afonso, poderia trazer muitas alegrias para Santana.
É preciso ainda planejar o trajeto final da Rua São Pedro à BR-316, via Largo Lulu Félix. Inclusive seria uma ótima opção para quem se desloca do comércio até a UNEAL. E para quem não conhece a nossa terra, Santana do Ipanema não cresce planejada. Sai inchando pelas periferias seguindo as trilhas de bodes, como no passado. Não tem linha d’água, não tem meio-fio, não tem nivelamento. É semelhante à geração espontânea. Atualmente a cidade é um verdadeiro canteiro de obras. Nunca se construiu tanto por aqui. Mas são obras particulares como construções residenciais, de comércio e reformas. Até profissionais estão faltando para atender todos os setores de Santana como pedreiros, pintores e encanador nesse boom construção civil. O surgimento de novas e inúmeras ruas sem planejamento poderá gerar problemas no futuro, como ruas estreitas demais.
Observando à parte, o centro comercial procurou se modernizar e hoje sem dúvida alguma é o mais belo do interior. Lógico que está faltando um calçadão desde o banco do Nordeste até o Museu Darras Noya, mas não se fala por aqui nesse assunto proibido. A cidade cresce na marra e na vontade dos investidores privados. O calçadão, cuja planta carregamos na cabeça, seria o coroamento do esforço desse tradicional comércio desde os tempos de povoado. Enquanto isso vamos registrando como PLANEJAR SANTANA.

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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

LULA E SARKOZY

LULA E SARKOZY
(Clerisvaldo B. Chagas. 4.12.2009)

A visita atual do Presidente Lula a Alemanha, talvez tenha sido a mais significativa de todas. Luiz Inácio foi recebido pela imprensa como um dos líderes mundiais com direito ao Brasil 5ª economia em breve. Os jornais mais significativos não pouparam elogios ao presidente e ao nosso país, falando até em uma nova descoberta do Brasil pelos demais países do mundo. Chegou o Brasil do futuro, o Brasil da influência global que tanto desejávamos. Com antecedência, a França começou a estreitar encontros com muita propriedade. O país europeu possui seu departamento, a Guiana Francesa, como o nosso vizinho, fazendo parte também da região amazônica. A Inglaterra é a sombra dos Estados Unidos. Aliados desde a Segunda Grande Guerra, para aonde um vai o outro acompanha, formando juntos uma força descomunal. A Alemanha lidera a economia da Europa, trazendo naturalmente certo ciúme entre os membros da UE. A França, que também foi socorrida pelo Tio Sam na Grande Guerra, quer recuperar a liderança da Europa e partiu para uma linha independente dos Estados Unidos. Passou a discordar abertamente de tantas opiniões americanas e inglesas. Sarkozy, prevendo o papel que o Brasil iria desenvolver no mundo, resolveu encostar-se por aqui e aproveitar o formidável momento em que estamos vivendo. O presidente francês procura o lugar de liderança da Europa, consciente de que tem potencial para isso, embora saiba que não será fácil desbancar a Alemanha. É importante, entretanto que a França esteja na mídia. O estreitamento da amizade entre os dois presidentes tem permitido grandes investimentos franceses na terra tupiniquim. Só o trem bala que o Brasil quer construir custará R$ 34 bilhões e, a usina hidrelétrica do rio Madeira, Rondônia, poderá atingir os R$ 9 bilhões. Outros projetos franceses estão em evidência. Pela parte do Brasil, é significativa a compra de 5 submarinos franceses ─ sendo um nuclear ─ 50 helicópteros e mais os aviões caças com transferência de tecnologia. Os parceiros vão alcançando o objetivo. A França não fica sozinha na política do mundo e, o Brasil apóia-se na França para se projetar. Aliás, o relacionamento Brasil/França (país europeu), está bem melhor do que o Brasil com os estados da América do Sul. E se o próprio Obama diz que o Lula é o cara, por que duvidar? A Imprensa alemã, agora assinou em baixo.
O ano de 2010 aguarda uma entrada triunfal do Brasil. É preciso agora cautela até que chegue a copa para nos consolidarmos de vez no cenário mundial. Os investimentos estão chegando de todas as partes, fazendo com que a nossa moeda seja robusta. Não queremos apenas a modernização rápida da telecomunicação, mas de inúmeros outros setores para sermos cada vez mais competitivos, Entretanto, melhor qualidade de vida do nosso povo é o que almejamos em primeiro lugar. Continuamos atentos às jogadas do xadrez político do planeta. O Brasil precisa avançar os cavalos e acuar o rei. Chegou ao momento exato a parceria LULA E SARKOZY.


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quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

AS TROVOADAS

AS TROVOADAS
(Clerisvaldo B. Chagas. 2.12.2009)

Voando ou devagar os dias vão passando e finalmente chega o início de dezembro. Temos no Sertão de Alagoas o clima semi-árido com as seguintes características: quente e seco; duas estações distintas chamadas popularmente inverno e verão; chuvas mal distribuídas e uma pluviosidade em torno dos 700 mm. Fenômeno notável e muito aguardado pelos sertanejos é a trovoada que pode aparecer em novembro, dezembro ou janeiro. As chuvas de trovoadas amenizam a temperatura, enchem açudes, barreiros, reverdecem os campos e trazem a certeza de melhores dias à população rural. Foi com esse acontecimento que o homem simples criou o ditado: “... igual às trovoadas de janeiro, tardam mais não faltam”. Essas chuvas benfazejas seguidas de relâmpagos e trovões quando atrasam em novembro ou dezembro chegam a janeiro nem que sejam no final do mês. No céu vão se desenhando as nuvens cor de chumbo, os urubus fazem festa, a garrota escaramuça, o boi cava o chão e as formigas procuram abrigo nos lugares mais altos.
Para o agricultor sertanejo, o ano sendo bom de chuvas, as safras de feijão e milho salvam o bolso nos meses junho/julho. Antigamente, quando o homem do campo estava quase sem dinheiro, chegava a safra do algodão no mês de setembro. A venda desse produto industrial era chamada dinheiro quente e ocasionava a saída das dificuldades financeiras. Era com ele que o matuto vinha para as festas de Natal e Ano Bom, quando vestia e calçava toda a família. Depois que o bicudo acabou com o algodão, outra renda ainda não apareceu para substituí-lo. Em nosso estado de Alagoas agricultor não melhora; agricultor só piora. Que nome! Sopiora. E as ilusões do campo continuam para quem não pode mais deixar a terra em que nasceu e por ela derramou suor e lágrimas.
Quando estamos na capital notamos até mesmo raiva de algumas pessoas no apontar das trovoadas. É que ao invés de euforia as chuvas trazem transtornos. Ficamos a pensar sobre o Sertão; a alegria com que as criaturas avistam os sinais dos céus; as nuvens que se acumulam; o escuro do espaço; a felicidade dos que olham do alpendre a precipitação vitoriosa. E na capital as águas escorrem pelo asfalto procurando saída, embaçando a visão, deslizando pneus. Lá no sertão elas furam a terra, abraçam os riachos, deitam-se nas barragens sequiosas.
Sem algodão, sem opção, sem direção ─ diz o poeta ─ seguem sem perder a coragem os descendentes tapuios. Mas o céu de anil vai mudando de cor trazendo um olhar gratificante dos que ainda acreditam no Supremo. A primavera seca facilita um tufo de vida que se aproxima movida por uma prece estranha. E o escritor aniversariante vê o rodeio das nuvens companheiras. Um presente de Deus para ornamentar essa data que também é Dele. Bem vinda seja a pureza das águas que removem faltas. Abençoados venham o cheiro, o fulgor e as benesses das nossas TROVOADAS.

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O MEL DE PEDRO ALEIJADO

O MEL DE PEDRO ALEIJADO
(Clerisvaldo B. Chagas. 2.12.2009)

São inúmeros os casos (hoje chamados folclóricos) acontecidos no interior. Um deles é o de Pedro Aleijado, personagem musical de Santana do Ipanema. Morador da Rua Prof. Enéas de Araújo, Pedro sempre teve habilidade com o pandeiro nos áureos tempos das farras, décadas 50-1960. Assíduo convidado pelos principais farristas da região, também tocou pandeiro para muita gente famosa que passou por essas terras. Pedro recebeu vários apelidos como “Pedro Aleijado”, “Mão de Aço” e “Deixe-Que-Eu-Chuto” (este porque puxa uma perna). Sempre alegre cheio de brincadeiras, Pedro ainda enfrenta um bom gole de Rum. Pelas tardes, o homem coloca uma cadeira na calçada e fica jogando lorotas com quem passa pela estreiteza da rua. Ali é uma fonte de pesquisa sobre as personalidades das noitadas santanenses. Para sobreviver, “Mão de Aço” botou na cabeça, vender mel de abelha pelas cidades circunvizinhas. Certa feita um cidadão, querendo fazer um remédio à base de mel, foi à casa de Pedro. Saiu um garoto e perguntou o que desejava o visitante. Depois o menino falou que o pai estava ocupado lá no quintal, fazendo mel de abelha. Essa passagem contribuiu para que o homem perdesse quase toda clientela automaticamente. É por isso que uma pessoa habilidosa gosta de dizer que faz tudo, menos mel de abelha. Logo quem conhece o caso rebate:"Mas Pedro Aleijado faz”.
Nós alagoanos geralmente não temos opções nas eleições para governador. Quem não faz parte dos “mesmos”, fica com pequenas possibilidades de se eleger. O eleitor fica indeciso, porque sabe que em Alagoas existe um círculo de viciados que não conseguem fazer com que esse estado saia do atraso fruto deles mesmo. Quem espera por uma candidatura nova, um líder jovem, idealista, vibrante, comprometido com a ética e com o povo, vai aguardar muito na poltrona fofa. O eleitor esclarecido, diante da sede de poder de tantos homens perigosos, fica frustrado por não poder contribuir com mudanças verdadeiras. Se não é uma oligarquia é um cartel permanente que resseca as gorduras de Alagoas, deixando o estado a mostrar os ossos para o restante do Brasil. Somos os párias; os filhos que não tem direito; o alagoano garroteado que muitas vezes se envergonha da terra em que nasceu. Quando se aproximam as eleições, o leitor não tem mais ânimo. Ânimo mesmo só para colocar para fora o que estão; para contrair novo desânimo com os que entram. Diz certo setor religioso que Alagoas foi escolhida para ser o lixeiro do Nordeste. Apesar de ser tão bela, carrega um saco permanente para guardar o negativo. Estou quase acreditando nisso. Mesmo assim vamos driblando, sobrevivendo, analisando e desanimando cada vez mais. Continuamos ricos em homens farinhas de Araripina ou semelhantes ao MEL DE PEDRO ALEIJADO.

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